quinta-feira, 23 de maio de 2013

DO TEXTO À IMAGEM: estudo da tradução de um teatro dramático para um teatro de imagem


RESUMO

Esta pesquisa de doutorado se propõe a abordar os novos caminhos do teatro contemporâneo através das possibilidades de tradução dos textos A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, para o teatro de imagens, sob os seus conceitos de pouca ou nenhuma utilização da palavra falada, bem como da desconstrução de uma dramaturgia linear. Para tal utilizaremos a transformação dos arquétipos encontrados nos textos originais em símbolos imagéticos correspondentes à sociedade contemporânea.

INTRODUÇÃO

One of the things I never liked in the theater of the nineteen-sixties, when I first came to New York, was that there was never any time to think’... ‘Every thing was so speeded up. It was never natural and there was no element of choice – you had to see what the playwright and the actors wanted you to see. It seemed important to have a more interesting experience than that!”[1]
Robert Wilson

A busca do teatro contemporâneo por um distanciamento do texto dramático vem no mesmo viés da busca dessa pesquisa que se iniciou já no final da dissertação de mestrado da mesma autora com algumas perguntas que permaneceram pendentes. Ao analisar a cenografia do teatro elizabethano do século XVI, foi inevitável abraçarmos tudo o que dizia respeito à imagem da época, tanto no palco quanto no edifício teatral peculiar desse teatro. Além de percebermos que havia na época uma preocupação imagética muito maior do que pensávamos, já que este teatro permaneceu para a posteridade pela importância de seus textos, foi possível perceber que a falta de um pensamento comum que olhe para o imagético no palco elizabethano como algo fundamental para a encenação vem da falta de uma compreensão da sociedade da época e das suas convenções.

Foi através dessa percepção que surgiu a necessidade de olharmos para a sociedade contemporânea sob esse mesmo viés imagético. Pensando em conciliar as perguntas que já haviam sido levantadas no estudo anterior com a vida profissional de iluminadora e cenógrafa, e a crença pessoal da força que a imagem, quando bem colocada, pode exercer no espectador, o primeiro grande obstáculo a ser transpassado foi como repensar a encenação do texto shakespeariano para uma sociedade hoje muito mais voltada para a imagem. Apesar de parecer uma questão simples a princípio, observemos que o espectador contemporâneo não está disposto a se colocar diante da arte e deixar-se envolver por ela de uma forma transcendental, ele está preocupado em explicá-la de forma linear e textual. Vemos essa necessidade de informações mastigadas nas nossas mídias, responsáveis por grande parte das imagens que recebemos, que utilizam o conceito de imagem não pelo modo de sensibilização da emoção, mas nos condicionam a uma assistência passiva - vide a publicidade que geralmente se apresenta seguida de um texto explicativo.

A partir dessa compreensão percebemos que para a imagem se tornar algo com uma força interior, o que Kandinsky[2] chamaria de valores espirituais que estão implícitos em cada imagem através das suas formas e cores, capaz de tocar profundamente tanto quem realiza como quem presencia o teatro e tirá-lo de sua passividade, precisávamos atingir o seu inconsciente. Foi então, buscando nos relacionar com o pensamento mais íntimo do espectador, que chegamos ao teatro de imagens. Podemos notar que tal forma teatral, que transcende a linearidade da história narrada do texto dramático, utiliza-se de uma linguagem sintética, abarrotada de signos e símbolos, e por isso tem uma estreita ligação com as nossas raízes mitológicas. Isto se deve ao fato de que o que deixamos de perceber pelo texto linear passamos a ter que sentir pela integração do espaço visual do teatro - elementos cênicos, objetos, bonecos, humanos, cenário, luz, som, ritmo e atmosfera -, deixando nossa comunicação mais subjetiva e introspectiva.

Apesar dos mitos terem sido considerados no passado a base do alto conhecimento humano, hoje são vistos apenas como histórias fantásticas sem nenhum significado mais profundo. O homem contemporâneo que pleiteia a sua racionalidade, se vê ‘enlouquecido’ por histórias fantásticas sem perceber que o que o está encantando não é a nova tecnologia 3D de um Avatar e nem o mundo imaginário de um Harry Potter, mas sim as questões mitológicas que estão subentendidas nesses fenômenos mesmo que, aparentemente, sejam apenas contos de fadas para crianças. Partindo das teorias de Jung[3], as imagens primordiais ou arcaicas encontradas nos mitos são instintivas ao homem, assim como a migração dos pássaros. Segundo as constatações de Joseph Campbell, idéias comuns sobre questões primordiais para a sobrevivência e a evolução do homem são encontradas em diferentes sociedades mesmo que não tenham tido contato algum: a idéia de um Criador ou um Ser sobrenatural com poderes sobre-humano; a idéia de um movimento cíclico com o Fim seguido sempre por um Recomeço; o conceito de Bem e Mal que muitas vezes é visto sobre o signo dos gêmeos etc. Sendo assim, porque acreditarmos que a sociedade atual tenha simplesmente extinguido seus mitos? Para Mircea Eliade[4] os conceitos mitológicos primordiais estão pulverizados de alguma forma na sociedade contemporânea através de histórias que permaneceram vivas ou mesmo nas religiões atuais.

Da mesma forma que o mito parece ter sido deixado à deriva, existe certa injustiça sobre o teatro com ênfase na imagem principalmente pela geração do teatro dramático que o coloca em um patamar inferior. Segundo John Bell[5], vai ser somente no Renascimento que se cria a idéia de um teatro popular em contraste a um teatro de ‘valores intelectuais’. É nesse período que o teatro de máscaras e de bonecos passa a ser considerado de menor valor, muitas vezes voltado apenas para o público infantil, enquanto o ‘Teatro’ como forma de cultura passa a ser o teatro do texto discursado e do ator. Se pensarmos que o primata é um animal visual e o uso das palavras foi empregado posteriormente através de sua evolução, talvez consigamos entender o desprezo dado ao uso das imagens. A respeito dessa história Vilém Flusser[6] vai dizer que as imagens no período pré-escrita tinham o propósito de representar o mundo, porém o homem ao invés de servir-se delas apenas como representação passa a vivenciá-las como verdade concreta. É assim que vai surgir a escrita, com o intuito de substituir essas imagens na representação do mundo concreto para que o homem voltasse a vivenciá-lo. Hoje temos o que ele chama de ‘imagens técnicas’ que surgem com a mesma intenção de eterno-retorno, mas que por sua vez são imagens que “imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo”, ou seja, toda imagem contemporânea está implícita ou explicitamente enraizada em algo escrito.

A partir disso podemos concluir que todo teatro de imagem, por mais distanciado que esteja da palavra, deve ter alguma forma de texto por trás. Isso não implica na necessidade de se partir de um texto ou de um poema para a sua criação, mesmo que se parta diretamente do objeto e do que ele representa, chegará um momento da pesquisa que, mesmo mentalmente, haverá a necessidade da criação de uma saga. O nosso desafio aqui consiste em partir de um texto altamente conhecido pelo público atual, mas que foi criado para um espectador completamente diferente disposto a ouvir e deixar que a mente ‘visse’ o que faltava no palco. Para inverter esse raciocínio - deixar que este texto transforme-se em imagem e que a imaginação da saga fique por conta do público - vamos tomar como ponto de partida o uso dos arquétipos segundo o conceito junguiano, que nada mais são que os símbolos que cada cultura escolhe para representar uma imagem primordial. Pensando dessa quais seriam os arquétipos de hoje?

A escolha dos textos A Tempestade e Sonho de Uma Noite de Verão deveu-se ao rico universo que estas peças abrem para o mundo do inconsciente em vista das suas características de um conto fantástico, mas que não deixa de colocar em voga questões como ética, política e crenças. As figuras que aparecem na história vem seguidas de toda uma reflexão sobre o ser humano. Se compreendermos que na Inglaterra Elizabethana havia uma confluência entre a religião Cristã e os mitos pagãos, e que este foi um dos poucos países onde não houve caça às bruxas durante a Inquisição, a figura de um mago branco, com poderes sobrenaturais (Próspero), passível de fazer de um espírito (Ariel) seu escravo e de criar uma tempestade em seu benefício, é uma figura muito mais concreta para a época do que imaginaríamos nos dias atuais e jamais pode ser analisada sobre os aspectos do Bem e do Mal das religiões Cristãs. O mesmo acontece com Titânia que estaria completamente fora dos padrões Disney de uma fada. O arquétipo da criança divina encontrada em Ariel e a figura da escuridão encontrada em Caliban, estão muito mais ligadas às questões da natureza do que as questões do Céu e do Inferno. É interessante notarmos como Shakespeare mistura personagens tanto da mitologia Grega como da mitologia Celta, lembrando que nas duas civilizações a relação divino-humano, mortal-imortal é muito mais próxima do que na Cristandade. Cabe aqui pensarmos então que imagens substituiriam esses personagens hoje?

Por fim, apesar de querermos esmiuçar um texto dramático e transformá-lo em imagem, não pretendemos de forma alguma gerar um desprezo ou uma crítica ao teatro dramático, pelo contrário, a idéia aqui é apenas buscar novas formas de representações que condigam com a imagética sociedade contemporânea. 

OBJETO

Para inserirmos um texto shakespeariano na sociedade contemporânea precisamos primeiramente distinguir esses dois mundos. Para sobreviver aos seus concorrentes atuais – Cinema, Televisão e Tecnologia Virtual -, o teatro contemporâneo vem buscando novas formas de encenação, principalmente no que diz respeito às imagens na cena. Além disso, o espectador mudou completamente nesses últimos 500 anos. Se na Inglaterra Renascentista as pessoas ficavam quatro horas em pé assistindo a um espetáculo teatral, hoje poucos conseguem permanecer diante dele por mais de uma hora e meia. O homem contemporâneo está acostumado a uma vida frenética com diversas atividades, assuntos e informações bombardeando sua mente concomitantemente. Dessa forma precisamos chegar a um tipo de imagem na cena teatral que consiga atrair o olhar desse novo homem e tirá-lo de sua inércia.

Foi pensando na busca dessa imagem que surge a idéia de conceituar e pesquisar as formas de se desconstruir um texto shakespeariano para uma encenação imagética, sob o eixo da análise e tradução dos seus arquétipos. Isto porque compartilhamos das idéias de Jung que defende que toda e qualquer sociedade tem seus arquétipos simbolizando seus mitos e acreditamos que podemos achar arquétipos equivalentes na sociedade elizabethana e na sociedade contemporânea. Nos firmamos na hipótese de que para mantermos a mesma qualidade e conteúdo do texto dramático em questão, é necessário pensarmos em um teatro de imagem que aceite percorrer um mundo subjetivo e inconsciente não só por parte do público receptor, mas também por parte dos seus encenadores que terão que se deixar levar pelos mitos adormecidos no mais fundo do seu íntimo. Entendemos que os problemas encontrados no âmbito da compreensão desse tipo de teatro por parte do espectador estão ligados à falta de introspecção do público contemporâneo e não simplesmente à falta de um texto linear. Quando a intenção, a idéia, a busca do encenador está clara no seu processo de criação, o uso das imagens se torna específico e direto, não deixando margem para o excesso e consequentemente algo vai ser recebido por este espectador, seja no seu consciente ou no seu inconsciente.

Ao optarmos por um teatro que se distancie da palavra falada, somos obrigados a nos deparar e abrir todo um viés de discussão a respeito dos quesitos técnicos teatrais - nem sempre tão essenciais no teatro da forma dramática -, bem como das questões do uso das tecnologias digitais no palco. O teatro, como uma arte aglutinadora de várias outras - música, dança, artes plásticas etc -, também tem em sua essência a necessidade de aglutinar o mundo digital e virtual. A grande questão a ser levantada é como usarmos essa nova tecnologia sem deixarmos de fazer Teatro. Como fica então a necessidade do encontro presencial entre palco e platéia? Qual o peso dessas imagens multimídias no teatro?

Depois de discorrido isso, parece irrefutável a relevância desse projeto perante as discussões da sociedade teatral. É visível que a sociedade acadêmica está buscando uma nova estética de encenação com um afastamento do texto dramático e ainda temos um vasto campo a ser debulhado. Se vamos lidar com um mundo onde a imagem predomina, temos que pensar que tipo de imagem é essa e como ela pode ser utilizada sem que haja sua banalização. Será que o homem contemporâneo só está apto a lidar com as imagens de maneira passiva ou podemos repensá-las de uma forma mais profunda?

QUADRO TEÓRICO DE REFERÊNCIA
INTRODUÇÃO
- FREITAS, Juliana Pedreira. A Cenografia no palco de Shakespeare: dissertação de mestrado da mesma autora que servirá para localizarmos os conceitos de imagem na cultura e no teatro elizabethano. 
- HODGES, C. Walter. Enter the Whole Army: a pictorial study of Shakespearean staging 1576-1616: livro que serviu de base para o mestrado da autora, apresenta possibilidades de cenários que teriam sido usado no teatro do século XVI e servirá aqui como contraponto para a busca das imagens contemporâneas. 
CAPÍTULO I
- BACHELAR, Gaston. A Poética do Espaço:vai discorrer sobre os conceitos da imagem que surge no universo do leitor através do uso da linguagem poética nos textos. Analisando os espaços físicos, casa, ninho, gavetas, armários, conchas etc., fará um paralelo em relação às emoções adormecidas que cada um deles é capaz de despertar.
- FLUSSER, Vilen. A filosofia da caixa preta: neste caso o conceito proposto é de que as imagens modernas não podem mais se encontrar desvinculadas de um texto, seja ele explícito ou implícito.
- KANDINSKY, Wassily. Concerning the Spiritual in Art: base para o conceito da espiritualidade da imagem, tem por base a teoria de que toda obra artística está imbuída desta. Sendo assim, o que importa é o que a imagem vai gerar na alma do interlocutor e não meramente suas formas e cores.  
CAPÍTULO II
- CAMPBELL, Joseph. A Transformação do mito através do tempo e O herói de mil faces: será utilizado para discutir a situação do mito na sociedade contemporânea.
- ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: estudo das imagens e símbolos, principalmente os sagrados, e sua relação com cada sociedade.
___________ Mito e Realidade: base para as questões do mito: sua estrutura; o mito como uma história sagrada e sobrenatural necessária ao homem pelos seus ensinamentos; a busca de sua origem através da renovação dos ciclos; os mitos apocalípticos e os ritos de iniciação.
- JUNG, C. O Homem e Seus Símbolos: é a partir daqui que trataremos os conceitos básicos usados para a tradução de Shakespeare em teatro de imagem: conceitos de arquétipo, de inconsciente e de inconsciente coletivo.
CAPÍTULO III
- AMARAL, Ana Maria. O Teatro de Formas Animadas: importante como referência histórica, a autora discorre sobre os grandes movimentos de vanguarda que influenciaram na criação do que vai chamar de teatro de formas animadas, passando por Alfred Jarry, Gordon Craig, Escola Bauhaus, o Futurismo Italiano e o Futurismo Russo, o Dadaísmo e o Surrealismo, a Performance e Bob Wilson.
- Robert Wilson: The Theater of Images: necessário para conceituar as origens do teatro de imagens de Robert Wilson e as suas intenções como encenador, bem como os resultados que este teatro tem quando completado com a presença do público.
CAPÍTULO IV
- BURRIS-MEYER, Harold and COLE, Edward C. Scenery for the Theatre: the organization, processes, materials and techniques used to set the stage: conceitos de técnica de palco, sua prática e ferramentas.
- CHAPPLE, Freda & KATTENBELT, Chice. Intermediality in Theatre and Performance: coloca em discussão a relação entre a tecnologia digital e a prática teatral, como fica o mundo virtual inserido no mundo vivo do teatro e a relação dessa nova forma de performance com este novo público contemporâneo.

OBJETIVOS

GERAIS
Como objetivos gerais temos o estudo dos conceitos de imagem, visto sob a ótica do teatro, através da análise da transformação do teatro dramático para um teatro de imagem. Como um texto pode ser traduzido em imagem sem que se perca a profundidade de suas idéias e intenções? Como tocamos o espectador usando apenas imagens?

ESPECÍFICOS
Para tal, voltamo-nos à análise do texto shakespeariano e escolhemos duas peças: A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão. A escolha se deve ao fato de encontrarmos nas duas uma grande quantidade de símbolos mitológicos e representações de rituais encontrados na Inglaterra Pagã, bem compreendidos pela sociedade da época e distante do homem atual. Mesmo vivenciando uma cultura onde a religião Cristã já estava instalada, os mitos pagãos ainda eram muito presentes e o povo inglês estava apto a entender e se identificar com seus significados. Dessa forma, é possível levantarmos arquétipos bem definidos através da leitura e análise destes textos, facilitando nossa intenção de usá-los como base para a tradução do texto original em símbolos imagéticos correspondentes à sociedade contemporânea sem perder a sua essência. O que representa pra nós essa Ilha de medos e belezas, povoada e deserta? Este Sonho de uma só noite em uma floresta cheia de mistérios?  Essa tempestade que tem o poder de restituir a ordem? A descoberta de um novo mundo pelos que estavam ali presos? Curiosamente Robert Wilson coloca que assistir a um teatro de imagem é como estar imerso em um sonho aonde elementos vem e vão, sem se ter controle sobre eles.  

PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS

A pesquisa partirá de uma realização no âmbito teórico, através de uma pesquisa qualitativa bibliográfica, em busca de conceitos e teorias já circulantes que respaldem o tema em questão. No primeiro capítulo trataremos de diferentes conceitos de imagem, com base em alguns autores: Bachelard, Kandinsky e Flusser. No segundo capítulo passaremos a englobar um mundo mais subjetivo, onde traremos a tona questões de psicologia e mitologia, por acreditarmos que este mundo mais intuitivo está extremamente ligado a simbologia das imagens que queremos buscar. Para tanto usaremos os conceitos da psicologia junguiana bem como autores que discutam a mitologia nos dias de hoje como Campbell e Eliade. O capítulo seguinte tratará dos processos de criação de um teatro de imagens e terá tanto uma pesquisa teórica qualitativa quanto uma pesquisa prática baseada nas experiências realizadas pelo grupo de estudo mantido pela Profa. Dra. Ana Maria Amaral, que visa discutir as diversas possibilidades de criação desse tipo de teatro. No quarto capítulo permanecermos nas duas linhas de pesquisa: teórica no que diz respeito à história da tecnologia no teatro; e prática no que diz respeito às novas tecnologias, através de experiências profissionais da pesquisadora. Fecharemos o estudo com um capítulo de pesquisa prática dedutiva dividida em duas etapas: primeiramente uma pesquisa individual em busca dos elementos arquetípicos a serem escolhidos como objetos específicos de estudo; e posteriormente uma pesquisa em grupo, coordenado pela pesquisadora, para o desenvolvimento e tradução desses elementos em teatro de imagem através dos pontos de vista dos diversos integrantes. O fechamento do trabalho será feito tanto pela entrega do material teórico, bem como de toda uma documentação do processo da pesquisa em grupo através de croquis, fotografias e filmagem, e pela apresentação dessa pesquisa prática possivelmente em uma fragmentação de cenas. Por fim discutiremos, a partir do material conseguido, a transformação dos conceitos de um teatro dramático para um teatro de imagens e a sua relação com o público contemporâneo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme discorrido, o que se pretende aqui é dar continuidade a algumas questões que foram levantadas durante a pesquisa de mestrado da mesma autora, intitulada A Cenografia no palco de Shakespeare, sendo a principal delas o papel imagético do teatro em relação aos conceitos da sociedade de sua época. Voltemos ao nosso ponto de partida: como deixar que um texto tão conhecido do público se transforme em imagens? O nosso maior desafio será entendermos que imagens serão necessárias a este teatro sem caímos no modismo do uso tecnológico.

Ao decorrer de nossa busca foi possível, até o momento, perceber que para chegarmos a imagens fortes e não banalizadas teremos que nos deparar com as questões mitológicas do homem. Se a dramaturgia do teatro de imagem tem relação, como já colocado, com a estrutura de um sonho, a falta dessa linearidade faz com que precisemos apelar para o inconsciente do homem, não só do espectador, mas também do encenador. Muitas vezes se torna difícil explicar como e por que aquele objeto surgiu, por que se escolheu este ou aquele símbolo e por que ele tomou determinado rumo e não outro. Parece que as coisas são mais compreendidas nas idéias do que nas palavras. O próprio ser-objeto-personagem se cria por si só, como se não fossemos mais que meros veículos para aquela criação. O processo de criação do teatro de imagem está no nosso subconsciente, nos mitos arraigados em nosso ser, em outro patamar que não o racional. Sendo assim, podemos dizer que a surpresa, o espanto, o gozo e as reações diante de um teatro de imagens são as mesmas que os nossos antepassados tinham diante dos seus rituais. Somente se deixando levar e acreditando naquilo que está sendo colocado em cena, mesmo que seja por um instante, é possível se envolver e tirar algum proveito dele.

SUMÁRIO DA PESQUISA

Introdução – Do texto e sua contextualização

1.1 Contextualização histórica (breve)
Quem é o povo inglês do século XVI?

1.2 A crença na sociedade elizabethana
Confluência entre a religião Cristã e os mitos pagãos
O rompimento com Roma e a criação da religião anglicana
A ausência da Inquisição romana

1.3 O teatro na sociedade elizabethana
O teatro público, formação e características
O teatro privado e da corte
A concepção de grupo teatral
Os grupos itinerantes

1.4 Shakespeare
A concepção de dramaturgo
A força do texto na sociedade

1.5 A imagética na sociedade elizabethana
Walter C. Hodges
A cenografia
O figurino
O som
Os efeitos especiais

Capítulo I – Dos conceitos da imagem

4.1 Vilém Flusser: imagens técnicas

4.2 Bachelard: as imagens poéticas

4.3 Kandisnky: os valores espirituais das imagens

4.4 A imagem nas artes
A imagem da luz
A imagem do cenário
A imagem do elemento cênico: objeto, boneco, ator
A imagem da palavra
A imagem do som

4.5 A imagem na contemporaneidade

Capítulo II – Das concepções de arquétipos e Mitos

2.1 Os conceitos de Jung
A religiosidade nas escritas de Jung
Consciente e Inconsciente
O arquétipos
Inconsciente coletivo
Os sonhos

2.2 O Mito: dramaturgia do sagrado
Joseph Campbell
Mircea Eliade
Jacqueline Held

2.3 A imagem do mito e os rituais na contemporaneidade

Capítulo III – Dos processos do teatro de imagem

3.1 Origens
Vanguardas do século XX (breve)
Gordon Craig e a concepção do encenador
Carlson – síntese abstracionismo, simbolismo, surrealismo, futurismo

3.2 Robert Wilson

3.3 Ana Maria Amaral

3.4 Bread and Puppet

3.4 Dramaturgia da cena

Capítulo IV – Do teatro e sua relação com a tecnologia

4.1 O história do teatro e sua relação com as novas tecnologias
maquinaria cênica: evolução dos recursos mecânicos
concepções cenográficas: bidimensional, tridimensional e virtual
técnicas de iluminação: fogo, gás, eletricidade, digital
efeitos especiais: técnicas ilusionistas analógicas e digitais
técnicas de sonoplastia: analógicas e digitais

4.1.1 Pensadores
Appia e Craig
Meyerhold e Piscator
Josef Svoboda

4.2 A tecnologia digital e a prática teatral
Como fica a necessidade do encontro presencial entre palco e platéia?
O virtual no palco se tona ‘ao vivo’?
Qual o peso das imagens multimídias no teatro?
Qual a relação da performance virtual com o público contemporâneo?

4.3 A tecnologia e o teatro de imagens
Qual a essencialidade dos quesitos técnicos num teatro de imagem?
A falta de conhecimento técnico/prático banaliza a concepção de um teatro de imagem?


Capítulo V – Da transformação prática do texto à imagem

5.1 Processos práticos da busca pela dramaturgia da imagem: estudos e reflexões realizados nos processos do grupo de estudo

5.2 Os elementos simbólicos encontrados no texto e suas possíveis variações para os arquétipos do homem contemporâneo

5.3 Concepção, análise e registro das imagens encontradas

Imagens bidimensionais e tridimensionais
Materialização de uma idéia 
Formas e movimentos
Resultados sob a luz
As imagens e suas Sombras
A anima da imagem

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, A. M. Teatro de Animação. S. Paulo: Ateliê Profissional, 1997.
______________. O Teatro de Formas Animadas. Tese de Doutorado, Escola de Comunicações e Artes, USP, 1993.
APPIA, Adolphe. A Obra de Arte Viva. Lisboa: Ed. Arcadia, s.d.
BACHELAR, G. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
___________________. Mitologias. 2 ed. Trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. São Paulo: DIFEL, 1975.
BELL, John. Bread and Puppet Theatre and the Rediscovery of Performing Objects. Bread and Puppet Museum (Catalogue). 1989. 2002.
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_______________. A Transformação do mito através do tempo. São Paulo: Cultrix, 1990.
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_______________ Mito e Realidade. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.
FLUSSER, Vilen. A filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 2002.
FOUCAULT, Michel. This is not a Pipe. trans. and edit. by James Harkness. USA: Univerity of California Press, 1983.
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JUNG, C.G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
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KELLER, Max. Light Fantastic: The Art and Design of Stage Lighting. New York: Prestel, 1999.
LEHMANN, Hans-Thies. O teatro pós-dramático. São Paulo, Cosac & Naify, 2007.
LEVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. Lisboa, Edições 70: 1985.
LISTA, Giovanni. La Scéne Moderne. Paris: Actes Sud, 1997.
MARRANCA, Bonnie (edited by). The Theatre of Images. New York: Drama Book Specialists, 1977.
MÓIN-MÓIN. Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas. Sociedade Cultura Artística de Jaraguá do Sul (SCAR). Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Jaraguá do Sul, anual.
PANOFSKY, Erwin. O Significado nas Artes Visuais. São Paulo: Perspectiva, 1979.
ROBERTO WILSON: THE THEATER OF IMAGES. Vários autores. 2 ed. New York: HARPER & ROW PUBLISHERS, 1984.
SOBRINHO, José Teotônio. O Ator no Teatro de Imagens. Dissertação de Mestrado, Escola de Comunicações e Artes, USP, 2004.
SQUIRE, Charles. Mitos e Lendas Celtas. Rio de Janeiro: Nova Era, 2003.
STEPHENS, Mitchell. The Rise of the Image, the Fall of the World. New York: Oxford University Press, 1998.

 CRONOGRAMA DAS ATIVIDADES DE PESQUISA


1º sem.
2011
2º sem.
2011
1º sem.
2012
2º sem.
2012
1º sem.
2013
2º sem.
2013
Pesquisa
Bibliográfica
X
X




Pesquisa de Campo
X
X
X
X
X

Pesquisa
Iconográfica
X
X




Créditos
disciplinares
X
X




Elaboração e apresentação da qualificação


X



Pesquisa Prática


X
X


Pesquisas Complementares



X
X

Redação final




X
X
Revisão e finalização





X
Preparação apresentação





X



[1] Robert Wilson: The Theatre of Images. p.54
[2] KANDINSKY, Wassily. Concerning the Spiritual in Art.
[3] JUNG, C. O Homem e seus Símbolos.
[4] ELIADE, Mircea. Mito e Realidade.
[5] BELL, John. Bread and Puppet Theatre and the Rediscovery of Performing Objects.
[6] FLUSSER, Vilen. A filosofia da caixa preta. p. 14