quinta-feira, 23 de maio de 2013

O DIGITAL EM CENA ensaio sobre o estranhamento criado pela relação tempo-espaço da imagem digital no teatro.



Seguindo as idéia de Arlindo Machado, em seu livro Máquina e Imaginário[i], a arte e a técnica estão entrelaçadas desde o início dos tempos. A palavra grega téchne, de onde deriva tecnologia, é a mesma para as práticas artísticas, e é somente no Romantismo que passamos a fazer uma separação. Peter M. Boenisch, mais extremista, sugere que o teatro deveria se transformar em uma nova mídia sempre que uma nova tecnologia surgisse e nos dominasse[ii]. Argumenta que é algo inadmissível pensarmos o teatro como uma arte pura que está sendo invadida pela mídia digital, e afirma que ele deve ser visto essencialmente como uma prática semiótica que se apropria do mundo a sua volta e o dissemina em termos sensoriais.

O mundo teatral permanece em uma eterna discussão onde uns tendem para o teatro “tradicional” sem a tecnologia, e outros tendem para o livre uso da tecnologia que seria a única forma de “salvar” a arte teatral e colocá-la na contemporaneidade. Longe de tentar tomar partido, parece-me mais relevante buscar o porquê muitas vezes temos um estranhamento no que diz respeito ao digital no palco. Tentaremos fazer uma análise da relação tempo-espaço entre o vídeo e a cena real (no sentido físico dos atores e objetos) e uma possibilidade de organização desse material conforme os elementos dos quais eles se apropriam na dramaturgia cênica.

Os primórdios do casamento cinema X teatro

Com o nascimento do cinema, em 1885, o teatro vai sofrer um duro golpe no que diz respeito a sua excelência perante o público. Ao se colocar uma nova linguagem, mais dinâmica por suas possibilidades técnicas, vamos perceber a arte teatral buscando não apenas se adaptar, mas também dialogar com essa nova tecnologia. A este acontecimento a teórica Bèatrice Picon-Valin vai denominar “cineficação”[iii]. Podemos observar dois tipos de cineficação: 1) externa: as imagens são projetadas em cena; 2) internas: técnicas desenvolvidas no palco tentando uma maior aproximação com a linguagem do cinema. Um bom exemplo de cineficação interna seria uma forma de gerar o efeito do close sem a possibilidade da aproximação da câmera usada no cinema. Vsevolod Meyerhold conseguiu esse efeito em O Inspetor Geral, de 1926, com 5 passos: 1) realização de gesto bizarro; 2) gestualidade biomecânica para conduzir o olhar; 3) repetição do gesto para fixar; 4) direcionamento da luz; 5) movimento dos outros atores parando e olhando para a cena do close direcionando também o olhar do público.

O uso das imagens projetadas em cena já vem desde o final do século XIX início do século XX. Em 1911, Loïe Fuller usava a projeção de vídeo no teatro através de um filme colorido que incidia sobre o figurino mudando sua coloração. Em 1913, Valentine de Saint-Point, dançarina futurista, usou a idéia de projeções em diversos elementos e tamanhos diferentes, muros, biombos e roupas, na Comédie des Champs-Elysées em Paris. Em 1914, nos EUA, temos a criação de um dinossauro virtual imaginado por Winsor McCay. Gertie the Dinosaur era um personagem virtual animado, projetado em um telão e que contracenava com o ator de carne e osso no palco (vídeo-personagem[iv]). O momento ápice da montagem era quando o ator passava de real para virtual entrando na projeção de Gertie. Na década de 1920, a combinação de real contracenado com o virtual já estava bem difundida nos cabarets e music halls: o mágico Horace Goldin brincava com a combinação de objetos reais e filmados; e Robert Quinault criou uma coreografia onde juntava dançarinos “ao vivo” com projeções em slow dos mesmos.

Um dos primeiros e principais high-techs do início dos anos de 1920 foi o tcheco Frederick Kiesler. Defendia a idéia de que o espetáculo deveria estar sempre em movimento e para isso já usava biombos móveis e um tipo de íris que ao abrir e fechar cegava o público. Ficou para a história como o primeiro a projetar um filme sobre uma cortina de água, conseguindo um efeito translúcido e mantendo o movimento. Ainda no mesmo período, podemos falar de Erwin Piscator e o uso que ele fez do vídeo em cena como forma de propaganda política. Ele define a multimídia no teatro com o seu filme-teatro Hoppla, Wir Leben!, de 1927. Considerado um Stationendrama, o espetáculo é fragmentário é apresenta a mesma idéia das paixões medievais onde cada cena tem uma conexão com a outra, mas são ao mesmo tempo distintas. O cenário era feito por diversas telas transparentes nas quais os lugares da ação eram projetados (vídeo-cenário). Na tela central era projetado um filme com o próprio ator da peça localizando-o em certos eventos de guerra (vídeo-memória).

Porém, mesmo nessa época já havia certa crítica a respeito do uso do filme e das inovações tecnológicas no palco, e até que ponto isto estava sendo usado moderadamente ou se havia um abuso ao sensacionalismo, não sendo interessante para o “bom” teatro. Como observou Toller, não se devia misturar o cinema e o teatro já que as duas artes seguiam leis diferentes.[v]

Com a Guerra e a depressão econômica cessam as experimentações fílmicas no teatro, que vão ressurgir somente em 1940, com o Teatro do Futuro de Robert Edmund Jones. Jones acredita haver todo um caminho para a arte no abismo entre o ator real e as imagens em movimento na tela. Usa as imagens na tela como uma extensão do subconsciente, dos pensamentos e sentimentos profundos, do imaginário (vídeo-alter-ego), tendo assim no palco simultaneamente o interno e o externo do personagem. Em 1958 teremos um grande desenvolvimento das tecnologias multimídias no palco com a fundação do Lanterna Magika por Josef Svoboda e Alfred Radok. A companhia cria três importantes invenções: o projetor Svoboda; a cortina de luz; e o ciclorama dobrado. Utilizam-se da idéia do polyscreen junto com a da iluminação direcional para criar a ilusão de uma sincronização entre imagem projetada e corpo “ao vivo”.

Virtual x real, uma concepção do espaço

O invento da fotografia gera toda uma discussão sobre a questão do real X irreal que se desenvolve com os processos tecnológicos que dependem de um dispositivo. Um dos primeiros a colocar essa discussão é Walter Benjamin[vi], que afirma que por mais perfeita que seja a reprodução de “algo”, é a presença desse “algo”’ no tempo e no espaço que vai confirmar sua autenticidade. Seguindo suas idéias, há uma diferença entre a reprodução manual, considerada falsificação, e a reprodução técnica que tem uma maior autonomia geradas pelos seus recursos técnicos[vii]. Vê nesses novos recursos uma fuga da tradição, não uma tradição no sentido clássico da obra feita a mão, mas sob o conceito de que a obra de arte só pode ser considerada como tal se ela tiver uma “aura” (algo único, uma coisa por si só independente do seu modelo, com uma vida latente). Dessa forma, a idéia da reprodutibilidade do mundo moderno e das massas faz com que as cópias sejam vazias, deixando de ter um caráter único e passando a ter um caráter comum.

Arlindo Machado[viii] vai separar as artes em dois momentos: as artes “não industriais” (pintura, escultura), onde acredita ainda haver um original sacralizado (no sentido de Benjamin) guardado em algum lugar; e as artes “industriais” (fotografia, cinema, artes gráficas, música concreta) que tem o dispositivo técnico como condição e guarda uma matriz (não o original) do qual serão feitas as reproduções destinadas ao público. Já Baudrillard vai colocar que não temos mais distinção entre o original, as simulações e os simulacros. Também Philip Auslander, no seu livro Liveness: performance in a mediatized culture (1999)[ix], vai dizer que o teatro já não tem uma “aura” porque é a reprodução de algum texto previamente dado. Sendo assim, distinguimos dois pontos que se desenvolvem a partir das teorias de Benjamin: 1) a tecnologia elimina a aura; 2) a tecnologia não altera nada, já que estamos mediatizados mesmo sem ela.

Indo mais longe ainda, segundo Machado, diferentes dos suportes fotoquímicos, a fixação da imagem digital não é imagem nenhuma, é apenas uma combinação matemática que só pode ser vista através de uma máquina de leitura. Uma paisagem não tem mais como referência um mundo físico, mas sim um programa. No mundo físico de hoje muitas vezes a imagem vem antes do objeto (um carro é construído e testado primeiro no computador para depois ser fabricado), dessa forma os objetos seriam as “cópias” das imagens geradas no computador. A computação gráfica leva às últimas conseqüências as idéias de Flusser[x] de que as imagens técnicas nada mais são do que conceitos que forjamos a respeito do mundo. Abala qualquer discussão entre concreto X abstrato, real X virtual, já que para ela o mundo físico humano é apenas mais uma forma de mundo, o qual ela não precisa para sobreviver, já que, diferentemente da fotografia, do cinema e do vídeo, as imagens do computador não dependem de nenhuma conexão com o mundo físico.

Deixando de lado a questão da representação e passando para a questão da presença, Roland Barthes,[xi] afirma que a fotografia aprisiona a realidade (de uma forma poética) e sendo assim poderia ser um certificado de presença, já que toda fotografia tem uma referência no mundo real. A fotografia só existe se existir o referente que fora colocado em frente à câmera, trazendo assim a presença de uma realidade passada. Seria por isso que muitas vezes as imagens projetadas chamam mais atenção do que as imagens reais. No mesmo raciocínio, Auslander coloca que a força estética está no digital já que ele incorpora o “ao vivo” (Dança + Virtual = Virtual).

Segundo Sandy Stone[xii] nos aponta, apesar dos argumentos de diferentes tipos de percepção por parte do público, a idéia de presença não pode ser uma idéia apenas física: semioticamente falando não há diferença entre uma mulher empunhando uma bandeira em um ato revolucionário no cinema ou “ao vivo” no palco. Desta forma, a presença estaria muito mais ligada ao foco de atenção: quando uma TV está ligada e todos na sala estão conversando a sua presença é distante, porém quando aparece uma notícia importante e todos se voltam para olhá-la, ela passa a comandar o senso de presença. Mesmo o ator real no palco não garante a idéia de presença se a peça estiver muito chata e você prestando atenção em outra coisa. Sob esse ponto de vista, ao contrário do que dissemos anteriormente, não haveria uma diferença perceptiva entre o vídeo e o ator real no palco, sua presença seria demarcada pelo mais interessante.

As questões do tempo

Como observa Sylviane Agacinski no seu livro Time Passing (2003), diferentes eventos correspondem a tempos diferentes.[xiii] Segundo ela, a noção de tempo nos humanos muda até mesmo de acordo com a sociedade em que se vive. O tempo é medido na história através de diferentes convenções humanas e diferentes ciclos naturais (O nosso relógio mecânico foi inventado somente em 1354 e a convenção do tempo de Greenwich somente em 1884). Tem-se o tempo atemporal dos mitos, o tempo cíclico (ligado as questões religiosas) durante todo o período da Idade Média, e o tempo linear e progressivo centralizado no Estado (Tempo Moderno). Já no mundo tecnológico que vivemos hoje, a não-linearidade dos computadores faz com que voltemos ao tempo mítico atemporal. Pode-se observar isso no teatro midiatizado onde não apenas deixamos de ter um tempo linear, mas passamos a ter também um tempo renovável (simultâneo e fragmentário).

As transformações tecnológicas pós-1870 mudaram a nossa percepção do mundo passando a pontuar sensações fugazes e a discutir a possibilidade de identificação do instante. Pensadores como Walter Pater, Walter Benjamin, Martin Heidegger e Jean Epstein[xiv] concordam com a idéia de que o instante pode ser percebido, porém, jamais fixado. Cada um deles vai denominar este fenômeno de uma forma: para Pater é o instante sublime; para Benjamin o choque; para Heidegger o momento da visão; e para Epstein a fotogenia.

A idéia do instante como um momento sensorial impactante foi pela primeira vez proposta por Walter Pater, em 1873, no seu livro Studies in the History of the Renaissance. Segundo ele, as obras de arte somente tem valor porque são capazes de nos despertar “instantes sublimes”. Heidegger vai associar a sensação momentânea do instante ao “momento da visão”. Conclui que assim como no “instante da visão” nada nos ocorre porque sempre nos escapa, também o instante só pode ser percebido depois de sua passagem através das lembranças que deixou. Em outras palavras, a sensação e o reconhecimento do instante nunca habitam o mesmo tempo. A isso ele chamou de “esvaziamento do presente”, ou seja, o presente está sempre perdido, estamos sempre à deriva do tempo. Também associando a idéia do instante à visão, Walter Benjamin busca o “agora da reconhecibilidade”. Sugere uma interdependência entre o instante e o fragmento: o momento presente seria como um “flash de luz”, o passado lançando luz no presente e/ou vice-versa. É neste momento que encontramos o “agora” sendo reconhecido. O reconhecimento do instante leva o nome de “choque”, supondo a idéia de sensações efêmeras já que, quanto mais forte é o choque, mais forte é a sensação de esvaziamento posterior. Nos escritos de Jean Epstein, ele argumenta que o cinema é feito de uma colagem de momentos fragmentários fugazes de experiências, que chamou de “fotogenia”. Desta forma, o importante no cinema não seriam suas narrativas, e sim as sensações fortes que certas imagens nos deixam. A fotogenia existe no instante, varia “simultaneamente no espaço e no tempo”.[xv]

A tentativa e a incapacidade de fixar o instante pode ser comprovada nas obras de Muybridge e Marey, onde o movimento somente pode ser captado por uma série de fragmentos. Um movimento é na realidade movimentos que se dividem interminavelmente. Muybridge e Marey definem toda a sua pesquisa com o movimento estruturado pelo tempo-espaço. O filme é composto por imagens em movimentos e lacunas entre essas imagens. Por ser fragmentário nunca é presente. O presente real esvaziado através da técnica tornou-se o movimento incessante do filme, mas somente através da percepção do espectador.

Segundo Paul Virilio, o tempo do computador nos dá a sensação de um tempo permanentemente no presente. Foucault fala sobre um tempo simultâneo, de justa posição, lado a lado, onde não temos mais uma vida que se desenvolve linearmente. Para Emmanuel Levinas, vivemos num presente perfeito onde o tempo não se move mais, apenas se dilata.
A flexibilidade do tempo é fundamental na ontologia do teatro: a audiência deve tanto aceitar a simbologia do tempo-espaço no palco, como a sua noção de tempo-espaço é afetada pelo espetáculo. No teatro digital a mesma coisa acontece, porém a sua justaposição e fragmentação de tempo-espaço pode atrapalhar a percepção do público transformando o “tempo suspenso” em um “tempo extratemporal”.

A idéia de “extratemporalidade” foi colocada por Steve Dixon em seu livro Digital Performance[xvi] e estaria ligada à idéia de Claude Lévi-Strauss das sociedades que vivem fora do tempo histórico. Diferente de um teatro que cria rupturas no tempo, aqui ele opera fora do tempo, em um terreno diferente. Segundo o autor, a lentidão e a repetição do teatro de Robert Wilson seria um teatro que cria uma ruptura no tempo, porém o teatro maníaco e dadaísta de Richard Foreman daria uma sensação de um sonho “extratemporal”. Foreman, tenta introduzir no espectador uma consciência supra-real dando a sensação de presente contínuo. Na performance multimídia, o duplo do mesmo corpo no palco e na tela criam um mesmo corpo em dois tempos diferentes (passado e presente), e que ao mesmo tempo existem no presente e no passado. A projeção com diferentes tempos no palco ao se relacionar com o ator presente interrompe “a cognição da linearidade do tempo para alcançar momentos de “extratemporal catarse"”[xvii].
  
Novas tecnologias e o teatro: uma questão de percepção

Robert Edmond Jones[xviii] (1940) é o primeiro a propor uma teoria sobre o teatro multimídia definindo alguns princípios e colocando a questão da mudança da percepção por parte do receptor. Segundo ele, existe uma mudança de ordem física no público quando assiste a imagens gravadas em movimento. Ao contrário das teorias cybernéticas pautadas no modelo Cartesiano de que corpo e mente estão separados e que o corpo virtual na tela seria uma projeção da mente, Jones acredita que os dois devem aparecer sempre juntos, já que o corpo virtual nada mais é que um sombra, uma memória. Somente com a junção no tempo e no espaço da mente (filme) e do corpo (palco) estaríamos completos.

Segundo Susan Sontag em seu livro Where the Stress Falls[xix], ver um filme no cinema e em casa causa reações completamente diferentes e isso não pelo tamanho da tela, mas porque no cinema você tem um único ponto de vista focal, enquanto em casa você tende a se distrair com outras coisas. A diferença de recepção do público do teatro e do cinema é ainda mais gritante. Quando o vídeo é usado no palco, assim que o ator deixa o palco e o vídeo permanece sozinho o público passa a ter outra reação. Normalmente, muito mais atentos enquanto há um personagem “ao vivo” no palco, ao permanecerem sozinhos com o vídeo o público relaxa a atenção tanto física como mental, isso porque tendemos a ter posturas diferentes quando apenas observamos e quando somos também observados. Para Jones, essa diferença em postura diz respeito também ao fato de que o público do teatro não só olha para o palco como para as pessoas a sua volta em uma ação coletiva, enquanto o público do cinema se concentra somente no filme de uma forma mais individual.

É partir da idéia da “intermedialidade” do teatro, ou seja, da junção característica do teatro com outras artes, que os autores Chapple e Kattenbelt[xx] vão discutir a questão da percepção do público. Para eles, apesar de incorporar todas as outras formas de artes o teatro não depende de nenhuma delas, pelo contrário, todas elas ao subirem no palco passam por uma teatralização. Sendo assim, precisamos ter em mente que quando um vídeo é colocado no palco ele deixa de ter apenas a sua característica cinematográfica e passa a ter um status diferente. A “intermedialidade” do teatro e do cinema em cena vai gerar uma simultaneidade de percepção diferente da que estamos acostumados.


O ator francês Jean-Louis Barrault vai teorizar as relações entre diferentes artes e afirmar que o “teatro é a arte do ser humano no espaço”,[xxi] sendo este espaço tridimensional. No teatro multimídia as projeções vão criar um segundo espaço normalmente em duas dimensões (alguns espetáculos atuais podem trazer projeções em 3D). Ao contrário do ponto de vista único que é dado ao público do teatro, o vídeo vai trazer diversos outros pontos de vistas pelos ângulos da câmera e possibilidades de zooms, criando um bombardeamento de imagens de diferentes tempos e espaços. Sobre este acontecimento, Bourdieu calcou o termo “semiologias simultâneas”.

E nessa idéia de uma projeção que marca por vezes uma diferença de espaço-tempo com o palco e por vezes cria a ilusão do mesmo tempo-espaço que vamos pautar nossa ferramenta para a análise do vídeo em cena.

O primeiro exemplo de uma diferença entre tempo-espaço seria o uso que a companhia Builders Association costuma fazer da projeção. Eles mantêm o real e o midiatizado separados buscando uma fuga ao ilusionismo. A mídia é apresentada como mídia, o que vamos chamar aqui de vídeo-mídia, e a nossa atenção é chamada a todo o momento para lembrarmos da interação dialética entre atores e imagens projetadas. Um bom exemplo disso é o espetáculo Jet Lag (1998) e Aladeen (1999).

No trabalho La Tempête (2005), da companhia 4D Art dirigida por Michel Lemieux, Victor Pilon e Denise Guilbault, as fronteiras tecnológicas são quebradas e a realidade e o virtual estão tão misturados que temos a sensação de um mesmo tempo-espaço. Usam ilusões óticas e hologramas para criar personagens virtuais (vídeo-personagem) que contracenam com os atores de carne e osso ou contracenam entre si dando a impressão de atores reais, porém em outra cena (mesmo tempo e diferentes espaços). Com os mesmos recursos técnicos criam cenários (vídeo-cenário) tanto bidimensionais, quanto tridimensionais que “englobam” o ator real, confundindo mais uma vez a nossa percepção do que é real e do que é digital. 

Um bom exemplo de um vídeo-alter-ego (no sentido de um outro Eu) é o espetáculo Divertimentos em Bequadro* (2001), dirigido por Arthur Belloni. Contando com três personagens principais, a criança, o homem e o velho, um dos pilares do espetáculo é a discussão do tempo e da linearidade, e como isso afeta as nossas vidas. Todos os vídeos que aparecem em cena foram gravados anteriormente, mas criam diferentes relações de tempo com os personagens “ao vivo” no palco, ora dando a ilusão de um mesmo tempo ora de tempos diferentes. O vídeo projeta o duplo do personagem do homem ao fundo do palco enquanto o ator em cena realiza os mesmos movimentos do seu Eu virtual, alternando o tempo de realização. O tempo se alterna entre a sensação de um tempo presente e outro tempo, como se a sombra desobedecesse ao próprio corpo e a alma se desgarra-se. A percepção de que o vídeo foi gravado em outro tempo nos dá muitas vezes a sensação da uma presença de um presente passado. Mais a frente, teremos nesse mesmo sentido vários rostos projetados que vão sendo “mascarados” através de uma animação como uma idéia interior dos atores que no palco também passam vestir máscaras. 

No espetáculo Devorando Quixote (2008) de Márcio Pimentel e Marcelo Denny, o espetáculo, ou performance como eles preferem chamar, conta uma história não linear baseada no clássico Dom Quixote. A idéia da direção é criar uma espécie de ritual cênico multimídia. Com três telões formando uma espécie de ciclorama, o espetáculo inicia-se com a projeção de imagens que pertencem a outro tempo-espaço, as lembranças do personagem, enquanto Dom Quixote em carne e osso permanece imóvel, em pé, sob a luz de um foco (vídeo-memória). Já em 1927 essa idéia aparece em Le Livre de Christophe Colomb de Paul Claudel, que usa o telão como um espelho-mágico que te leva para a atmosfera do texto. Num segundo momento, com a atriz real em uma maca, a projeção nos telões faz uma menção a um close do que estaria acontecendo em cena. Temos aqui espaços diferentes dando a ilusão de um mesmo tempo. Este recurso também foi usado por Lepage, em Lipsync (2008), ao mostrar o ator operando um cérebro. Dando continuidade a idéia de vídeo-lente-de-aumento, passa-se a projetar no telão uma imagem “ao vivo” do que está acontecendo no aquário à direita do palco. Poderíamos resumir esta idéia de vídeo-lente-de-aumento como algo que amplia o que não é possível ser visto em cena. Em diversos momentos da peça, o uso do vídeo tem a função cenográfica, o que já denominamos anteriormente de vídeo-cenário, trazendo diferentes espacialidades para um mesmo tempo. Já na metade da peça teremos o vídeo-alter-ego. Aqui, um duplo do ator filmado e editado “ao vivo” é projetado nos telões, criando com uma mudança cromática uma estranheza proposital entre o Eu em cena e seu Eu virtual. A imagem funciona como uma sombra inconsciente ou imaginária. O fato da dramaturgia de Devorando Quixote ter o formado de um sonho, sem uma linearidade no tempo, ajuda na combinação perceptiva do digital e do real, já que o tempo-espaço tanto de um como de outro pertence a um terceiro lugar. Este é um bom exemplo do que discorremos acima de um espetáculo “extratemporal”.

É bom ressaltarmos que esta classificação e as respectivas denominações é apenas uma tentativa de organizar a percepção do público, já que o que interessava aqui era como cada uma dessas imagens eram sentidas, e não tivemos conhecimento das reais intenções dos diretores. Conclui-se então que se a maior estranheza entre o cinema e o teatro está na diferença do seu tempo-espaço, a melhor forma de se discutir o uso do digital no palco é através da análise desse tempo-espaço na cena. A junção da imagem na tela com a ação no palco sugere um diálogo semiótico entre os dois que podemos resumir por: A (vídeo) X B (ator). Ou podemos olhar isso como uma adição onde: A + B = C; sendo C algo completamente novo. Essa adição foi proposta por Alain Virmaux como sendo algo que não faz parte nem do teatro, nem do cinema, mas algo na dimensão de um sonho.

BIBLIOGRAFIA:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade. In: Obras escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.
CHAPPLE, F.; KATTENBELT, C. (edited by). Intermediality in Theatre and Performance. 2 ed. Amsterdam, New York: Edition Rodopi B.V., 2006
CHARNEY, Leo. Dez. Num Instante: o cinema e a filosofia da modernidade. In: O cinema e a invenção da vida moderna. Cosac & Naify.
DIXON, Steve. Digital Performance: a history of new media in theater, dance, performance art, and installation. Cambridge: The MIT Press, 2007.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Demaré, 2002.
MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 1996.
PICON-VALLIN, Béatrice. Meyerhold e a Cena Contemporânea. In: A arte do teatro entre a Tradição e a Vanguarda. Fátima Saad [org.] (Teatro do Pequeno Gesto). Rio de Janeiro: Letra e Imagem, 2006.





[i] MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas.
[ii] CHAPPLE, F.; KATTENBELT, C. (edited by). Intermediality in Theatre and Performance.
[iii] Termo utilizado em aula ministrada na USP em 2011
[iv] Começo a classificar alguns vídeos com denominações que serão explicadas mais adiante somente como forma de exemplos, para ir colocando o leitor na idéia principal deste ensaio.
[v] DIXON, Steve. Digital Performance: a history of new media in theater, dance, performance art, and installation.
[vi] Ibidem.
[vii] BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade.
[viii] MACHADO, Arlindo. Máquina e Imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas.
[ix] DIXON, Steve. op. cit.
[x] FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia.
[xi] DIXON, Steve. op. cit.
[xii] Ibidem.
[xiii] Ibidem.
[xiv] CHARNEY, Leo. Dez. Num Instante: o cinema e a filosofia da modernidade.
[xv] Ibidem. p. 396.
[xvi] Ibidem.
[xvii] Ibidem. p. 542
[xviii] Ibidem.
[xix] Ibidem.
[xx] CHAPPLE, F.; KATTENBELT, C. (edited by). Intermediality in Theatre and Performance.
[xxi] DIXON, Steve. op. cit. p. 335.