quarta-feira, 22 de maio de 2013

A performance “as” imagem: possíveis relações entre performance e teatro de imagens.



A performance cria, principalmente, ao resgatar o rejeitado e não ao explorar o desconhecido. Um reencontro com a experiência que o homem médio não pode buscar, dado seu limitado contato com o mágico domínio da arte.[1]
Jorge Glusberg

Segundo Richard Schechner qualquer ação pretendida é performance. Os conceitos de performance são tão amplos que se torna difícil considerar se são válidos ou não para qualquer discussão mais específica de um determinado assunto. Podemos falar na performance do jogador de futebol, do governo americano na Guerra do Iraque, do chef de cousine famoso, dos padres da Igreja Católica, das Escolas de Samba, do nosso banho de cada dia, e até mesmo das chamadas “performance art”. Hoje é possível encontrar referências à performance em qualquer ponto da cidade - Zona Sul de São Paulo: Performance Cabeleireiros. Porém, Schechner coloca também outra distinção que parece facilitar a separação do absolutamente “tudo e qualquer coisa” e da performance como conceito: “As performances – artísticas, rituais ou da vida ordinária – são feitas de comportamentos duplamente agidos, comportamentos restaurados, ações performadas que as pessoa treinam para executar, que praticam e ensaiam”.[2]

Podemos concluir, então, que fazer cabelos todos os dias torna o nosso cabeleireiro da Zona Sul um performer da arte de cortar cabelos. E por que não? De qualquer forma fica evidente que tirando a ironia de uma palavra que se tornou o maior ícone de representação da contemporaneidade, no sentido mais equivocado desta, a questão mais interessante que encontramos nos escritos de Schechner é o que ele vai colocar como a visão do mundo “as performance”. Segundo ele toda ação, mesmo que seja uma não-performance, pode ser observada, estudada e colocada “como performance” sob o ponto de vista do espectador, mesmo que este espectador seja a própria pessoa que realiza a ação, que passa a realizá-la com a intenção de fazê-la “como performance”. Ou seja, tratar alguma ação “as performance”, é observar o que essa ação faz, como ela interage e como ela se relaciona com o outro. Se, no entanto, toda a ação pode ser repetida e ensaiada, significa que toda ação tem a potencialidade de ser considerada “as performance”. Sendo assim, a diferença entre um ato cotidiano e a performance não está na discussão entre o que é vida real e o que é teatro, mas na atitude reflexiva que tomamos perante a este ato, a esta ação.

Foi pensando na concepção desse olhar diferenciado sobre os acontecimentos diários que pautamos a realização de uma ‘idéia performática’ em vídeo – que chamaremos aqui de “vídeo performance”.[3] O grande mote da idéia em questão era olhar para o próprio tempo, o próprio cotidiano, o próprio “eu”, de uma maneira que isso pudesse ser visto como realização artística, especificamente como uma “performance art”. Para isso criamos um vídeo autobiográfico do próprio cotidiano de estudar a perfomance. A ação observando a si própria e ensaiando a si própria. Como aprender a observar o mundo com outros olhos, específicos de uma classificação que torna aquele acontecimento performativo? Criamos um tempo que se mediu a ele mesmo, circular, eterno-retorno do retorno, uma idéia de presente do tempo performático, um presente que como diria Deleuze “preenche o tempo, [...] que absorve o passado e o futuro”.[4] 

Nas idéias dos pós-estruturalistas, tão influentes nas performances dos anos 1960, no mundo de hoje não existe mais a noção de original, toda imagem é multiplicável e é ao mesmo tempo uma multiplicação, tudo é cópia, tudo é intertexto, tudo se replica, e sendo assim tudo tem um perfil “performativo”, ou seja, qualquer coisa pode ser duplamente agida. Porém, nas palavras de Josete Férral, “se o ato performado é repetição, ele não é, ainda assim, nem clone nem imitação. Ele surge, a cada vez, como reprodução de si mesmo assim como de outro”.[5] Neste caso a ação tem como referência a transformação do original, mesmo que o original seja a cópia. Não é imitação e nem um duplo morto, é o próprio original renascido, por isso cada ato da performance é único mesmo que repetido. Cada realização do ato performático se completa com o outro e com si próprio, sendo assim uno ainda que não original. Essa busca pela reverberação que percebemos, do uno no múltiplo, vai de encontro com a pesquisa de doutorado em andamento Do Texto à Imagem: estudo da tradução de um teatro dramático para um teatro de imagem, que procura trabalhar com imagens que representem os arquétipos da cultura atual, mas que não caiam na banalização da cópia pela cópia.  


Vivemos hoje no mundo do “já sentido”.[6] Segundo Mário Perniola, apesar de vivermos num mundo onde “sentir é poder”, e onde o sentir está acima do pensar e do agir, não existe um sentir novo. As pessoas estão prontas a sentir o que queremos que elas sintam: nem se sente primeiramente, nem se sente simplesmente, é tudo um reflexo do reflexo. A função da obra artística é justamente procurar trazer a tona esse sentir novo. Se para os Estóicos, a imagem é a expressão do ser, vai ser então nas imagens que vamos encontrar uma saída que fuja do lugar comum. Recapitulando nosso “vídeo performance”, usamos os conceitos de Perniola de que o mundo é construído de imagens e tudo que percebemos do mundo é através de imagens, e tentamos recriar o íntimo das imagens que podem ser encontradas no subconsciente do “eu” ao olhar e refletir sobre o seu próprio ato de agir. É na crença do poder das imagens, que como Kandinsky[7] já colocava tem valores espirituais implícitos através de suas formas e cores, capaz de tocar profundamente tanto quem a realiza como quem a presencia; na idéia de que imagens são feitas de sensações, mesmo que não tenhamos consciência delas; e na constatação de que a arte é a composição desses blocos de sensação, que buscamos trabalhar um “teatro de imagens” em substituição ao teatro dramático tradicional.  

Robert Wilson observa sobre Einstein na Praia:
Você não deve pensar sobre a historia, porque não existe nenhuma. Você não deve escutar as palavras, porque elas não significam nada. Tudo que você tem a fazer é curtir o cenário, os arranjos arquitetônicos no tempo e no espaço, a música, os sentimentos que eles suscitam. Escutar as imagens.[8]

É justamente nesta figura tão atual que conseguimos um ponto de encontro entre nossa pesquisa em direção a um teatro imagético e os conceitos de “performance art” colocados na disciplina cursada. Visto pelo seu processo histórico os dois marcam o seu surgimento nos movimentos dos anos 1960, mesmo que posteriormente tenham se dividido em dois grupos distintos vinculados ao corpo do performer e à tecnologia. Foi ainda no auge do movimento performático nos EUA, que em 1968 Richard Kostelanetz, cunhou o termo “theatre of mixed means” para essa nova linguagem teatral que fugia do texto narrativo em detrimento de uma exploração dos significados da sensação do som, da iluminação, dos objetos e cenário, da movimentação dos corpos em cena, bem como o uso das novas tecnologias já em poder do cinema e da televisão. Porém, é somente em 1977 que Bonnie Marranca vai usar o termo “Theatre of Images” para este mesmo tipo de espetáculo sob os conceitos de um teatro com pouca ou nenhuma utilização da palavra falada e sem uma narrativa linear: “trabalhos que rejeitam o enredo tradicional, personagens, cenários e especialmente a palavra, para enfatizar o processo, a percepção, a manipulação do tempo e do espaço, e criam uma nova linguagem teatral, uma linguagem visual escrita em códigos sofisticados”.[9] Entretanto, vai ser somente após os anos 80, que esse tipo de espetáculo que não apresentava uma relação fechada com o corpo e a psique do artista solo, passa a ser denominado também como performance.

É sobre esses conceitos de teatro de imagens colocados por Marranca e tão bem realizados por Robert Wilson que pretendemos realizar o trabalho que nos propusemos de traduzir os textos A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, para um teatro de imagens. A pergunta que nos guia é como realizar um teatro que se coloque em contato com o publico atual de uma maneira deslocada da comunicação da mass media, com seu excessivo uso da imagem pela imagem, a procura de atingirmos outras camadas do sentir, muitas vezes inseridas no inconsciente do espectador?

Um outro nome que teve grande influência nos anos 1960 e 1970 foi Antonin Artaud, com O Teatro e Seu Duplo, onde argumentava que:
...o teatro tradicional perdeu o contato com os campos mais profundos e mais significantes da vida pela sua ênfase no texto escrito, e no seu interesse psicológico e intelectual. A predominância do teatro de texto deveria terminar para ser substituído por espetáculos com ações diretas, “físicas e objetivas”.[10] 

Se pensarmos a arte contemporânea como uma releitura do mito do fim do mundo, para termos um verdadeiro recomeço precisamos ter um verdadeiro fim. Foi assim que já entre os modernos os artistas buscaram destruir os conceitos do “Teatrão” e transformá-lo em um teatro com o poder de transcender, deixar-se sonhar, refletir e pensar. Ligado a essa busca a dramaturgia do teatro de imagens vai buscar trabalhar com as manifestações da vida, seja ela humana ou material, vai em busca da anima de cada material que será colocado em cena, e será sob essa manifestação que vai construir a sua ação.

Esta forma de ação, baseada no movimento e no objeto animado, está muito mais ligada ao que encontramos nos nossos sonhos, aparentemente sem começo, sem meio e sem fim. Criamos assim outras relações de tempo e espaço que não as antigas fórmulas aristotélicas. Mesmo que tenhamos uma atitude consciente, é no espaço ilógico e irracional que este teatro se ergue. A relação com o espectador passa a ter outros veios, não é mais a compreensão linear que interessa, não é mais a transmissão de uma narrativa, é o que pode ser despertado no inconsciente, o que pode ser sensibilizado. A exemplo do teatro Robert Wilson, é um teatro que pode ser visto como um processo de edição de filmes onde as imagens são simbólicas e pontuais, não pretendendo ser auto-explicativas. Nada é linear, estamos num caminho do inconsciente onde podemos deixar o pensamento fluir.

Partindo da idéia de que uma imagem a ser colocada no palco tem uma relação direta com um arquétipo adormecido e vai levantar das profundezas as idéias míticas do passado não nos deixando nenhum controle sobre elas, encontramos uma estreita ligação entre o teatro de imagens e as idéias mitológicas revividas em nossos rituais. Neste ponto parece-me que deixamos um pouco a “performance art” de lado e nos ligamos aos conceitos de performances rituais. Segundo Schechner:
À essa noção de falso, fundamental para uma definição da performance, ajunta-se aquela de ritual, mais rígida, mais estrita, constituída pelas ações representadas ou restauradas. Concebido como memória em ação, sobredeterminada, redundante, o ritual é “espetacular” por natureza, pode-se dizer. Ele veicula um sentido, uma mensagem e o receptor deverá aprender para que faça sentido: “A metamensagem do ritual é ‘você pegou a mensagem, não!?”, diz Schechner.[11]

Como é sabido, nos primórdios do teatro não é o texto e nem o ator que são o seu pilar de sustentação, a sua origem são as manifestações rituais com figuras totêmicas, máscaras, figurinos e objetos sagrados. O sentido do ritual está naquilo a que ele se refere, sua função é mostrar o indivíduo a si mesmo. Se olharmos o teatro como uma performance ritual, perceberemos que por mais parcial e específico que você tente ser no palco, você nunca vai saber que caminhos irá despertar no espectador. As imagens, quando poéticas, podem levar as almas nas direções opostas de sua intenção. O que importa, então, é como o espectador vê, ou seja, é a junção da imagem com a emoção, a composição de sensações.

Chegamos à percepção de que se o teatro de imagens, apesar de ter a mesma raiz nos movimentos dos anos 1960, historicamente deixou de ser considerado como o modo, podemos dizer, mais comum da “performance art” derivada daquele momento, ele pode muito bem ser estudado “as performance”. Assim como a “performance art”, o teatro de imagens tem a necessidade de aglutinar diversas formas de arte - música, dança, artes plásticas, teatro etc -, e também traz em sua essência essa necessidade atual de aglutinar o mundo digital e virtual. Hoje, temos uma divisória muito tênue entre o que é virtual e o que é real. Se assistirmos aos atuais programas de televisão, como BBB e No Limite, percebemos essa divisória cada vez mais fina. Assim como também os testes do exército, as simulações de horas de vôo, os cartões de crédito, nos mostram como a questão do presencial ou da virtualidade deixou de existir. Estamos em um momento onde o virtual também é presença. Não precisamos mais contar com a figura do ator em carne e osso para nos fazermos presentes. Considerado isso, um vídeo pode ser considerado uma performance se ele buscar olhar e falar sobre certas idéias e conceitos, como demonstramos. Mesmo em 1929, Piscator já colocava em questões as mudanças dos conceitos teatrais em detrimento da tecnologia. Para ele, a tecnologia não era uma finalidade em si, mas algo que iria transformar o teatro, iria transformar a maneira do ator representar para que pudesse rivalizar com as imagens em cena. Hoje chegamos ao extremo: este mesmo ator se transformou na própria imagem.

BIBLIOGRAFIA
CARLSON. Marvin. Performance and its Historical Context. In: ________Performance: A Critical Introduction. London and New York: Routledge.
CARLSON. Marvin. Performance art. In: ________Performance: A Critical Introduction. London and New York: Routledge.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. trad. Luis Roberto Salinas Fortes. Ed. Perspectiva.
FÉRAL, Jossete. Performance e Performatividade: O que são os Performances Studies. In: MOSTAÇO, E.; ORFINO, I.; BAUMGARTEL, S.; COLLAÇO, V. (org). Sobre Performatividade. Letras Contemporâneas.
KANDINSKY, Wassily. Concerning the Spiritual Art. translated by M.T.H. Sadler. New York: Dover Publications, Inc, 1977.
MOSTAÇO, Edélcio. Fazendo Cena, a Performatividade. In: MOSTAÇO, E.; ORFINO, I.; BAUMGARTEL, S.; COLLAÇO, V. (org). Sobre Performatividade. Letras Contemporâneas.
PERNIOLA, Mario. Do sentir. trad. Antonio Guerreiro. Lisboa: Editora Presença, 1991.




[1] MOSTAÇO, Edélcio. Sobre Performatividade: Fazendo Cena, a Performatividade. p.21.
[2] FÉRAL, Jossete. Sobre Performatividade: Performance e Performatividade: O que são os Performances Studies. p. 75
[4] DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. trad. Luis Roberto Salinas Fortes. p. 167.
[5] FÉRAL, Jossete. Sobre Performatividade: Performance e Performatividade: O que são os Performances Studies. p. 77
[6] PERNIOLA, Mario. Do sentir
[7] KANDINSKY, Wassily. Concerning the Spiritual in Art.
[8] In: CARLSON. Marvin. Performance art. p. 110. Tradução livre.
[9] In: CARLSON. Marvin. Performance art. p. 105. Tradução livre.
[10] Idem. p. 91/92. Tradução livre.
[11] FÉRAL, Jossete. Performance e Performatividade: O que são os Performances Studies. p. 58/59.