quinta-feira, 23 de maio de 2013

ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA: uma busca por uma teoria de análise do espetáculo contemporâneo que dê suporte para uma criação prática pautada na tèkne plástica do espetáculo.



RESUMO

Pretende-se aqui apontar uma relação entre as teorias de mimesis, mythos e opsis na análise do espetáculo contemporâneo colocadas pelo professor Luiz Fernando Ramos e a pesquisa de doutorado em desenvolvimento. Esta pretende buscar uma forma de tradução de um texto dramático para um teatro não-verbal, sob o ponto de vista de um teatro centralizado na visualidade cênica. Para isso se pretende buscar um mote de análise e criação do espetáculo através das tecnologias teatrais utilizadas e mostrar como as disponibilidades tecnológicas influenciam na concepção imagética da cena.

Palavra-chave: imagem; tecnologia; mito; opsis; tèkne, mythos.

ABSTRACT

The intention here is to point out a relationship between the theories of mimesis, mythos and opsis in the analysis of contemporary spectacle placed by Professor Luiz Fernando Ramos and doctorate research in development. This intends to seek a way of translating a dramatic text to a non-verbal theater, from the point of view of a scene centered on visuality. For it intends to seek a device of analysis and creation of theatrical spectacle through the technologies used and show how technological availabilities influence the design scene imagery.

Keyword: image; technology; myth; opsis; Tekne, mythos.



PRÓLOGO

Ao se fazer uma proposta de uma encenação para o público contemporâneo muitos são os obstáculos que podem ser encontrados. No caso da proposta dessa pesquisa havia ainda um relevante, não se queria criar um texto novo, mas tentar entender como funcionaria uma encenação de um texto elisabetano para a cena atual. Desde o início o ponto de partida não era o texto literário em si, mas sim a visualidade da cena, traçando um paralelo entre o que havia sido visto no século XVI e como isso se daria nos moldes atuais. Quando se muda o público e se muda a visão da realidade é necessária uma mudança também nas convenções teatrais como afirma Raymond Williams em Drama em cena “uma convenção não é somente um método, uma escolha técnica voluntária e arbitrária; ela traz consigo todas aquelas ênfases, omissões, avaliações, interesses e indiferenças que compõem um modo de ver a vida e o teatro como parte da vida”. (2010, p.222) Pensando dessa forma, existem diferentes necessidades do público elisabetano do momento da fortificação da língua inglesa e da criação da imprensa, e do público contemporâneo do mundo imagético. O interesse primordial aqui é dar um contraponto ao que foi pesquisado na dissertação de mestrado[i]: se no cenário elisabetano era comum o uso do recurso do texto para preencher os buracos que a visualidade da cena não conseguia resolver por falta de recursos técnicos, o desafio agora era transformar em imagens o que não poderia ser dito em palavras em um teatro não-verbal.

A escolha do texto A Tempestade, de William Shakespeare como parte da pesquisa prática que se pretende realizar concomitantemente a teórica se deu curiosamente, pensando-se nos tempos híbridos atuais, a partir de uma adaptação cinematográfica: Próspero’s Books de Peter Greenaway. O filme é uma transposição do texto teatral para o cinema, porém mantendo uma forte correspondência com a arte teatral: a câmera que se comporta como o olhar do espectador de teatro se beneficia amplamente da tecnologia digital, com imagens sobrepostas e grande contraste de cores aproximando-se do público contemporâneo. A imagem de Próspero aparece como uma justaposição de imagens feitas eletronicamente, o que distancia o filme da narrativa tradicional e da ilusão de realidade. O espectador não pode mais permanecer passivo, os quadros dentro dos quadros precisam ser decodificados. Segundo Clelia Mello (2001), existe uma relação entre as composições imagéticas de Greenaway com as idéias de Artaud do teatro como lugar, da cena como algo predominante e não apenas a serviço do texto. A autora coloca que o que importa para Artaud é o efeito causado pelos signos ao se juntarem, quebrando com isso o conceito da representação da realidade. Greenaway estaria então buscando a mesma coisa ao criar os 24 livros (que não existem no texto original) como suporte e linguagem para a produção de sentidos: “Em uma imensa colagem de fragmentos, integra vários campos do conhecimento humano como idéias, palavras e imagens; participantes da criação de uma nova narrativa a partir da reorganização em si” (MELLO, 2001, p.53). A criação da imagem dos livros através do programa Graphic Paintbox, funciona como uma criação de um pintor e sua paleta trazendo uma narrativa pessoal à cena. O diretor realiza uma produção de formas baseadas em uma estruturação mental, ou seja, uma idéia anterior ao ato de criação que estabelece uma ordem estrutural que deve ser seguida. A ilha do filme remonta a características italianas mostrando a nostalgia de Próspero ao revelar partes da sua vida conforme a trama se desenvolve. A estrutura narrativa é dividida entre passado, presente e futuro. O passado é o Prólogo e apresenta uma iluminação escura. O presente vai da revanche de Próspero até o seu arrependimento com uma iluminação que remete ao sol do meio-dia. O futuro, após Próspero abrir mão de seus poderes, é iluminado como uma aurora boreal. Nos dois primeiros todas as vozes são feitas por Próspero mostrando o seu poder e a sua característica de manipulador da trama[ii]. Porém, pode-se observar que o trabalho estético do cineasta só é realizável pelas possibilidades tecnológicas disponíveis na combinação entre cinema, vídeo de alta definição e computação gráfica.

Se o teatro é uma relação entre o texto e a imagem, ou entre o mythos e a opsis como coloca o professor Luiz Fernando Ramos, a compreensão dessa relação na cena elisabetana e na cena atual é necessária para a compreensão e criação do espetáculo que se pretende. A partir da idéia de que o teatro contemporâneo tem a opsis como ponto central em detrimento do mythos, é necessário para o trabalho com esse teatro um entendimento do que é a imagem, de como ela é criada e como ela é recebida pelo no público. Pretende-se mostrar aqui que, como pode ser observado nas teorias da imagem, o meio do qual a imagem se apossa para tornar-se visível influencia na percepção e criação da imagem. Dessa forma, é então possível criar-se um mote de análise da cena através da tèkne[iii] plástica do espetáculo, pensando a tèkne como produtora de estética, ou seja, através da tecnologia teatral utilizada em cada espetáculo.

MYTHOS E OPSIS


Para qualquer dramaturgo, o problema da relação entre texto e cena é o que ele leva para a mesa, é tudo aquilo com o que ele vem lidando, em circunstâncias diferentes, por mais de 2 mil anos. Para qualquer ator, encenador e diretor, o mesmo problema – o de transformar a escrita numa produção real – é permanente, tal como para o escritor é diverso, experimental, mutável. E para os leitores e o público, essas várias relações e atividades estão lá o tempo todo, embora eles talvez não trabalhem nelas de modo direto. Dessa forma, o que acontece entre o texto e a cena é uma relação contínua, em toda essa importante área da escrita e da atuação que constitui nosso drama, o tradicional e o contemporâneo. (WILLIAMS, 2010, p.232)


A tensão entre texto e imagem já vem desde as primeiras teorizações do teatro do Ocidente. Platão, em A República, diferenciou o modo diegético (associado à pura narrativa) e o modo mimético (que não é narrativa é imitativa, que não está na palavra do narrador e sim na voz do personagem). Para ele, a estrutura diegética como texto era mais aceitável que a mimética, já que através da sua concepção do mundo das Idéias, o imitativo seria a cópia da cópia e perderia assim o seu valor. Essa ideia de mimesis como cópia aparece pela primeira vez em Platão, antes disso a mimesis seria considerada a aparição de uma imagem, que no período arcaico era considerada uma presença real e não uma cópia de algo anterior.

Em Poética, Aristóteles apresenta a questão da mimesis como poesis, como produção. Sendo o teatro uma manifestação mimética ele não seria uma cópia e sim a produção de uma nova realidade artificial, mesmo que esta ainda fosse semelhante ao mundo real. Ao colocar os elementos necessários à tragédia, aponta para a tensão entre mythos (trama ou enredo) e opsis (visualidade do espetáculo ou encenação). Como ele discorre mais sobre o mythos em detrimento da opsis ao analisar a tragédia do século V, convencionou-se afirmar que ele tinha preferência pelo primeiro. Porém, ao dizer que a catarse, como objetivo da tragédia, é conseguida mais pelo mythos do que pela opsis, ele acaba por apresentar a necessidade da relação entre ambos para a realização da tragédia.

No século XVIII, em Discurso sobre poesia dramática, Diderot (apud RAMOS, 2009) resgata a visualidade da cena em Aristóteles. Contrário as interpretações neoclassicistas da obra que através da visão de superioridade do mythos compuseram a idéia das unidades, Diderot volta-se para o caráter espetacular do teatro. Aponta assim a necessidade do dramaturgo se ocupar da visualidade da cena e a importância do corpo do ator em cena. Porém, mesmo apontando a dualidade do teatro, as decisões ainda permaneciam nas mãos do dramaturgo.

Em Mallarmé há pela primeira vez uma separação entre literatura e ficção dramática, sendo o espetáculo algo a parte. Para ele a literatura é a grande arte, completa, e o espetáculo seria construído baseado apenas nos corpos e na música (2010). O teatro de Mallarmé é “uma unidade dual em que a literatura e o espetáculo, expurgando a ficção dramática, radicalizam-se alternativamente no puramente literário e no puramente espetacular” (RAMOS, 2009, p.97). Sendo assim, passa-se a ter uma dissociação entre mythos e opsis. A mimesis aqui é pensada pela primeira vez como algo fora do dramático, como matéria bruta sem um referente externo.

Segundo Raymond Williams (2010) o drama seria tanto o texto literário como a ação cênica. Desta forma diferencia quatro tipos de ações dramáticas, cada uma delas posicionadas em um lugar da tensão entre mythos e opsis. Na fala encenada, o dramaturgo escreve tanto a obra literária quanto a representação cênica, todos os detalhes são predeterminados e ao se dizer o texto em cena o drama é compreendido completamente, nenhuma ação importante está fora da palavra dita. Na representação visual, gestos menores que acompanham a palavra falada e são prescritos pela obra literária são necessários para a compreensão do drama, a relação varia conforme a quantidade de rubricas e indicações na fala, o restante é desenvolvido no processo da encenação. Na ação dramática denominada atividade, as palavras estão sempre subordinadas à ação, o texto apresenta uma visão geral, mas é a ação que dará a característica de cada encenação e por isso cada uma delas é diferente; não há relação clara entre fala e gesto como no anterior, existe apenas uma partitura de movimentos que são acompanhados pela palavra. Já no comportamento, a fala escrita, os movimentos e os espaços cênicos são descritos em linhas gerais, o resultado aparece na interpretação dada no processo da criação da encenação[iv], os gestos não são encontrados na obra literária, são deduzidos pela característica de que comportamento seria comum para aquela situação. A relação entre mythos e opsis estaria então relacionada à ênfase nos elementos: fala, movimento, espaço cênico e som. O autor reconhece que existe uma grande variação entre o mythos e opsis que caracteriza diferentes tipos de espetáculos, mas afirma, assim como Mallarmé, que em qualquer drama existe uma separação entre literatura e teatro.

Ao pensar o espetáculo contemporâneo deve-se diferenciar o que é a transmissão da narrativa do que é a superfície que se dá a ver. Não é ver a cena como uma tradução de uma dramaturgia implícita anterior, uma produção de visualidade, mas algo com uma dramaturgia própria. No início do século XX, influenciado por Mallarmé, Gordon Craig vai propor a autonomia da arte teatral: “Interessa aqui ressaltar a consciência de Craig sobre a diferença crucial entre encenar por meio da composição de ações dramáticas e criar uma cena diretamente, sem qualquer mediação literária” (RAMOS, 2009, p.97). A partir de Craig, podemos pensar em uma “poética de cena” com a opsis no ponto central em detrimento do mythos. Marco de Marinis (apud RAMOS, 2009) conceituou o termo “dramaturgia da cena” já em 1978 por acreditar que havia uma textualidade própria da cena.

A TRAMA E O MITO

As imagens do mito têm que ser os onipresentes e desapercebidos guardiões demoníacos, sob cuja custódia cresce a alma jovem e com cujos signos o homem dá a si mesmo uma interpretação de sua vida e de suas lutas: e nem sequer o Estado conhece uma lei não escrita mais poderosa do que o fundamento mítico, que lhe garante a conexão com a religião, o seu crescer a partir de representações míticas. (NIETZSCHE, 2007, p.133)


Nos primórdios do teatro não é o texto e nem o ator que são o seu pilar de sustentação, a sua origem são as manifestações rituais com figuras totêmicas, máscaras, figurinos e objetos sagrados. O sentido do ritual está naquilo a que ele se refere, naquilo que é representado. Os rituais (de nascimento, iniciação, casamento, funeral etc.), mostram o indivíduo a si mesmo e o colocam em seu papel perante a sociedade (não um papel individual, mas como a mãe, a noiva, o sacerdote, o chefe). Esta necessidade humana da criação de símbolos vem da sua necessidade da compreensão do sentido da vida. Para Jung (2008) os símbolos são arquétipos, ou seja, a tendência da busca de uma mesma representação de um motivo, sem as suas variações e detalhes. São figuras primeiramente universais e não devem ser confundidos com as figuras simbólicas que foram modificadas para representar o mito em cada cultura (Hércules, Ulysses, Aquiles etc.).

As sociedades antigas estavam mais bem preparadas para a concepção e representação do mito do que a sociedade atual. É principalmente com a divulgação do cristianismo que os eventos mitológicos passam a ser vistos como acontecimentos físicos reais e cria-se um distanciamento entre os homens e os deuses. Como afirma Nietzsche (2007) no período mais antigo da tragédia Dionísio não está presente, é apenas representado como se estivesse. Quando se mostra como o deus real e se apresenta em cena como visível, nasce o drama e é a queda da tragédia. Anteriormente a isso todo homem e todo local eram sagrado bastando um ritual para se entrar em contato com os deuses.

Por mais que o homem contemporâneo tenha a característica do homem racional e intelectual[v] os mitos são se perderam no tempo. Partindo da teoria de Jung de que as imagens arquetípicas encontradas nos mitos são instintivas ao homem percebe-se que o está encantando o homem contemporâneo está além da nova tecnologia 3D de um Avatar, mas sim nas questões mitológicas que estão subentendidas no enredo. Mesmo sem citar as imagens apocalípticas encontradas nas religiões judaico-cristãs, as comemorações do Natal e da Páscoa ou as renovações das festas de Final de Ano, os mitos são encontrados até mesmo nas doutrinas políticas totalitárias do século XX. Tanto o nazismo como o comunismo apresentam a idéia de um fim do mundo e o início de uma nova era de abundância (cada um dentro da sua crença do que seria o Paraíso) (ELIADE, 2006). As prosas narrativas e os romances são outro importante exemplo. Os grandes clássicos que atravessaram a história, sejam como literatura adulta ou infantil, apresentam certas constantes do desejo humano. A Branca de Neve, o Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida, foram transformados em literatura infantil, mas escondem na essência toda uma discussão sobre conflitos sociais, sexualidade, relações humanas e crenças. Até mesmo as histórias dos super-heróis como o Superman camuflam o mito do herói que se aventurou no outro mundo e retornou com um aprendizado. Para Jung: “Seres mitológicos antigos são, agora, curiosidades de museu. Mas os arquétipos que exprimiam não perderam o seu poder de atingir as mentes humanas. Talvez os monstros dos filmes de terror sejam versões distorcidas de arquétipos já não mais reprimidos.” (2008, p.92).

Assim como para Nietzsche (partindo do princípio que o mito já estava morto na sociedade grega) a tragédia grega seria o resgate e a exaltação do mito, pode-se fazer um paralelo desse resgate com o que acontece hoje no teatro. Para o filósofo as palavras não são suficientes para a representação do mito: “A articulação das cenas e as imagens perspícuas revelam uma sabedoria mais profunda do que aquela que o próprio poeta pode aprender em palavras e conceitos...” (2007, p.100-101), o que vai de encontro a um teatro centralizado na opsis. Se não se tem mais a representação de um texto linear dramático e a percepção do público passa a agir pela integração do espaço visual (elementos cênicos, objetos, bonecos, humanos, cenário, luz, som, ritmo e atmosfera), a percepção no teatro contemporâneo tende a estar ligada aos mitos da humanidade e as suas representações arquetípicas. Sendo assim, a mimesis não cognitiva atual estaria mais ligada à concepção da música dionisíaca conceituada por Nietzsche onde não há uma aparência no sentido apolíneo, mas algo de outro patamar de percepção[vi].

Outra relação é encontrada entre o mythos de Aristóteles e os mitos da humanidade sob o ponto de vista dos juízos estéticos colocados por Kant onde o sentimento do belo seria algo apriorístico, de validez universal e sem a necessidade de um interesse empírico racional (KANT, 1999). Não há nada na mimesis que leve um raciocínio fechado, muito pelo contrário, muito menos a idéia de afetação de Aristóteles. Não é possível ter juízos morais definidos na recepção da obra e não é necessária a utilização de elementos racionais para perceber-se a obra. Novamente, a percepção seria então pautada em um sentimento subjetivo guiado pelos conhecimentos arquetípicos universais. Seguindo as ideias de Mallarmé (2010) da separação entre literatura e teatro, o mythos moderno não estará atado a nenhuma narrativa preestabelecida, porém, quando não existe a potencialidade do mito, a opsis acaba por se transformar em um conjunto de imagens banalizadas.

A ENCENAÇÃO E A IMAGEM  

Ao se estudar as teorias da imagem é necessário ter claro que a maioria delas estão ligadas ao pensamento Ocidental. Na maioria das vezes, estudiosos, teóricos e artistas, não se importam com o significado da imagem na sua cultura de origem, apenas reinterpretam-na: Picasso, por exemplo, apenas transferiu as formas da máscara africana para a cultura Ocidental, separando-as do seu meio e modificando o seu sentido. Também é importante levar em conta que o que são imagens para uns não são para outros: no início da colonização as imagens para os espanhóis eram diferentes das imagens para os astecas e, por isso, acreditou-se que os astecas não adoravam nenhum tipo de imagem.

Mas, então, o que é a imagem?

A primeira confusão se faz na língua de origem: o inglês separa imagem (image) de figura (picture), enquanto no alemão imagem (bild) engloba imagem e figura. No português usam-se os dois sentidos. Alguns autores acreditam que as imagens circulam sem a necessidade de um corpo, outros associam a imagem com a visibilidade, e alguns identificam as imagens como símbolos icônicos. Como resultado, não só não se fala da mesma forma sobre diferentes imagens, mas fala-se das mesmas imagens de diversas formas.

Em seu livro What do Pictures Want?, Tom Mitchell apresenta uma dualidade da imagem entre imagens mentais e objetos físicos. Para ele, imagem é qualquer motivo ou forma; objeto é o suporte onde a imagem aparece ou aquilo ao que ela está se referindo e trazendo à vista, e meio é um conjunto de práticas materiais que une a imagem e o objeto produzindo figuras. Defende que se olhe para as imagens sob o ponto de vista do que elas querem e não do que elas representam, porém precisa-se ter claro que o que as imagens querem não é o mesmo que elas produzem, ou o quê elas dizem que querem. Segundo suas ideias, sendo a imagem tão importante quanto à linguagem em uma cultura visual, as imagens não querem ser reduzidas a um signo, querem ser vistas como indivíduos complexos que ocupam uma posição de sujeito.

Tomando outro ponto de partida, Hans Belting no livro Antropology of Image se baseia em uma visão antropológica da imagem. Para ele, a imagem não é apenas um produto dado pelo meio (como é o caso da figura) é também um produto de nós mesmos (sonhos, imaginação e percepção pessoal). Coloca a dualidade da imagem entre: imagens internas (mentais) e imagens externas (vistas pelos olhos). Mais do que um produto de percepção, a imagem é criada por um conhecimento e uma intenção individual ou coletiva. Vive-se com as imagens e compreende-se o mundo através das imagens. Marc Augé (apud BELTING, 2001) irá chamá-las de sonhos e ícones respectivamente, sendo o primeiro privado e o segundo público. O que é produzido e fabricado entre o imaginário privado e o coletivo é justamente o que é usado para um controle político e para a manipulação. No ponto de vista da antropologia são as imagens que estão no controle colonizando o cérebro humano.

A teoria de Belting (2001/2005) se estrutura no trinômio imagem-meio-corpo onde: os meios transmitem as imagens; os corpos recebem as imagens pela percepção, mas ao mesmo tempo produzem imagem (neste caso agindo como meio); e as imagens (internas e externas) espelham o mundo exterior tanto quanto representam o mundo interior. Ou seja, entre as imagens internas e as externas, existe um terceiro parâmetro, o meio, como suporte para a visibilidade da imagem. A imagem externa é formada pelo meio + imagem, por isso só se pode entender o que é uma imagem externa quando colocado o como ela se mostra. É na tradução desse conceito para as práticas teatrais que se encontra a idéia da tecnologia (meio) como influenciadora da criação e percepção da imagem cênica (imagem externa).

Sabe-se que hoje a relação entre a imagem e mundo real não é mais a mesma, as imagens virtuais e a inteligência artificial da atualidade levam ao limite a idéia de corpos reais e conseqüentemente das imagens tradicionais. Antigamente eram o espelho (mito de Narciso) e a sombra (mito da Garota de Corinto) que representavam os corpos. No primeiro era imprescindível a água como meio e no segundo o muro. A mídia digital serve a ambos e liberta-se das leis da gravidade. As imagens digitais atravessam a imaginação corporal e cruzam a linha entre imagens visuais e imagens virtuais (imagens vistas e imagens projetadas); inspiram as imagens mentais mais do que são inspiradas por elas (MACHADO, 1996), criando um fluxo contínuo e uma fusão entre imagens internas e imagens externas.

Dando continuidade, deve-se ter claro que as imagens não são mídias, elas usam as mídias como forma de se tornarem visíveis. A imagem como conceito não depende do meio (a Mona Lisa é a mesma no quadro ou na tela do computador), mas a sua visibilidade e percepção sim. Ao distinguir a imagem do meio, tem-se a evolução da mídia figurativa (perspectiva, fotografia, cinema) separada da evolução da imagem mental (a memória de imagens antigas agora em novas mídias). Apesar de alguns tentarem separar o meio (pintura, foto, filme) da imagem visual, isso só acontece quando se olha analiticamente para a imagem externa. Percebe-se então que o meio sempre compete com as imagens que ele transmite e ao se lembrar de uma imagem lembra-se dela no primeiro meio que foi vista (A Mona Lisa sempre será lembrada como uma pintura, mesmo que a pintura seja apenas o meio do qual o artista se utilizou para tornar a imagem visível).

Segundo Belting a mídia é intermediária por definição, mas também trabalha como intermediária dela mesma. As mídias coexistem em camadas com características de acordo com a sua posição na história. Muitas vezes as mídias antigas e novas se misturam mudando apenas seus significados e assim pode-se ver a própria imagem das mídias antigas nas mídias novas (a pintura na fotografia, o filme na tv etc.). A nossa percepção também funciona em camadas nos permitindo distinguir mídias de diferentes tipos e diferentes épocas. As novas tecnologias visuais introduziram certa abstração na forma de se ver, e hoje se coloca uma confiança maior na tecnologia do que nos próprios olhos, mas mesmo as imagens virtuais só se fazem visíveis através da percepção do corpo. Mesmo que a mídia mude a percepção da imagem, é o homem que cria as imagens. Bernard Stiegler (apud BELTING, 2005) propõe uma separação na percepção das imagens entre uma percepção analítica e uma percepção sintética: analítica no que diz respeito à tecnologia e ao meio, e sintética no que diz respeito às imagens mentais. Ou seja, primeiramente analisa-se o meio dado e em seguida interpreta-se o que essa imagem transmite.

A TÈKNE E A TECNOLOGIA CÊNICA

A arte e a técnica estão entrelaçadas desde o início dos tempos. A palavra grega tèkne, de onde deriva tecnologia, é a mesma usada para as práticas artísticas, e é somente no Romantismo que se fará uma separação. Peter M. Boenisch (apud CHAPPLE, 2006) sugere que o teatro deveria se transformar em uma nova mídia sempre que uma nova tecnologia surgisse. Argumenta que é algo inadmissível se pensar o teatro como uma arte pura que está sendo invadida pela mídia digital, e afirma que ele deve ser visto essencialmente como uma prática semiótica que se apropria do mundo a sua volta e o dissemina em termos sensoriais. Para Belting (2005), nos dias de hoje não é mais a arte, mas sim a tecnologia que assumiu a mimesis da vida.

No dicionário Aurélio tecnologia quer dizer: conjunto de conhecimentos, especialmente princípios científicos, que se aplicam a um determinado ramo de atividade. Partindo desse ponto de vista ligado a ideia de tèkne e deixando de lado a tendência atual de olhar a tecnologia como tecnologia digital, observam-se mais claramente as mudanças nas imagens cênicas geradas pela tecnologia teatral: o deus ex-machina grego; as máscaras gregas de ampliação de voz; o efeito de explosão e fumaça dos Mistérios Medievais; os candelabros a óleo do teatro Renascentista; a idéia da perspectiva tanto nos telões pintados quanto na arquitetura teatral; a complexa maquinaria cênica dos palcos italianos, entre outros, até a era moderna com o surgimento do cinema e hoje as tecnologias digitais.

Após a descoberta da perspectiva e os cenários dos pintores, o conceito de cenário tridimensional de Gordon Craig não vai apenas mudar a estrutura da cenografia, mas, segundo o próprio, não mais “nos apresentará imagens definidas como as criadas pelo pintor ou pelo escultor; mas nos desvendará o pensamento, silenciosamente, pelo gesto, por sucessivas visões” (apud PICCON-VALLIN, 2006). Com a descoberta da energia elétrica e as novas possibilidades de iluminação geradas por ela, Adolphe Appia baseia a sua idéia de que a luz deve tomar o lugar das cores pintadas nos telões, agora com movimento, intensidade e tonalidades variantes. Antonin Artaud coloca ainda as transformações que ela pode causar no espectador.

Com o nascimento do cinema, em 1885, o teatro vai sofrer um duro golpe no que diz respeito a sua excelência perante o público. Ao se colocar uma nova linguagem, mais dinâmica por suas possibilidades técnicas, percebe-se a arte teatral buscando não apenas se adaptar, mas também dialogar com essa nova tecnologia. A este acontecimento a teórica Bèatrice Picon-Valin denomina cineficação[vii]. Observam-se dois tipos de cineficação: 1) externa: as imagens são projetadas em cena; 2) internas: técnicas desenvolvidas no palco tentando uma aproximação com a linguagem do cinema.

O uso das imagens projetadas no teatro aparece desde o final do século XIX início do século XX. Em 1911, Loïe Fuller usa a projeção de vídeo incidindo sobre o figurino e mudando sua coloração. Em 1913, Valentine de Saint-Point, usa projeções em diversos elementos e tamanhos diferentes (muros, biombos e roupas), na Comédie des Champs-Elysées em Paris. Em 1914, nos EUA, Winsor McCay cria um dinossauro virtual. Gertie the Dinosaur era um personagem animado, projetado em um telão, que contracenava com o ator de carne e osso no palco. O momento ápice da encenação era quando o ator passava de real para virtual entrando na projeção.

Um dos primeiros e principais high-techs do início dos anos de 1920 foi o tcheco Frederick Kiesler. Defendia a idéia de que o espetáculo deveria estar sempre em movimento e para isso já usava biombos móveis e um tipo de íris que ao abrir e fechar cegava o público possibilitando mudanças imperceptíveis (apud DIXON, 2007). Ficou para a história como o primeiro a projetar um filme sobre uma cortina de água, conseguindo um efeito translúcido e com movimento. Ainda no mesmo período, pode-se falar de Erwin Piscator e o uso que ele fez do vídeo em cena como forma de propaganda política no espetáculo Hoppla, Wir Leben!, de 1927, um stationendrama fragmentário ao modo das paixões medievais. O cenário era feito por diversas telas transparentes nas quais os lugares da ação eram projetados. Na tela central era projetado um filme localizando o personagem principal em eventos de guerra.

Em 1940 surge o Teatro do Futuro de Robert Edmund Jones, que acredita haver todo um caminho para a arte no abismo entre o ator real e as imagens em movimento na tela (apud DIXON, 2007). Usa as imagens na tela como uma extensão do subconsciente, dos pensamentos e dos sentimentos mais profundos, mostrando simultaneamente o interno e o externo do personagem. Em 1958 acontece um grande desenvolvimento das tecnologias multimídias no palco com a fundação do Lanterna Magika por Josef Svoboda e Alfred Radok. A companhia cria três importantes invenções: o projetor Svoboda; a cortina de luz; e o ciclorama dobrado. Utilizam a idéia do polyscreen junto com a iluminação direcional para criar a ilusão de uma sincronização entre imagem projetada e corpo real.

A TEKNÈ COMO MOTE DE ANÁLISE DA CENA CONTEMPORÂNEA

Depois de discorrido as questões teóricas da criação, do armazenamento e da percepção das imagens, torna-se evidente a afirmação de que as tecnologias, quando assumem o papel do meio, interferem radicalmente na criação da imagem externa, ou na criação da figura sob o ponto de vista de Mitchell. Seguindo as ideias de Hans Belting, pode-se afirmar que tanto na percepção como na criação das imagens deve-se levar em conta a variação de dois pontos: o corpo e o meio. No primeiro encontra-se a distinção cultural coletiva e/ou privada que interfere diretamente na percepção do público. No segundo, o suporte da visibilidade da imagem, ou, como foi demonstrado, a tecnologia que torna a imagem visível.

Greice Kibuuka no artigo A ópsis na poesia dramática segundo a poética de Aristóteles afirma, ao analisar a Poética, que Aristóteles ao discriminar os seis elementos da tragédia no capítulo VI coloca-os como parte do espetáculo e, consequentemente, sua organização estaria submetida à opsis já que o objetivo final de toda tragédia é sempre a sua encenação. O filósofo diria inclusive que “acerca da produção de encenações [ópseõn], a arte do fabricante de objetos teatrais é mais importante que a arte dos poetas” (apud KIBUUKA, 2008, p.64). Dando continuidade a sua análise a autora coloca que a necessidade da opsis na tragédia estaria relacionada à recepção do público já que a “sua incapacidade de compreensão da trama faz com que seja dada ênfase na encenação das peças” (2008, p.66). Conclui então que a avaliação da tragédia grega não estava relacionada apenas ao texto literário, mas também a sua encenação e a sua recepção.

Durante muitos anos a tecnologia teatral serviu apenas de ponto de apoio ao espetáculo teatral, mesmo assim é correto afirmar que o dramaturgo, ou o encenador, só criam um espetáculo quando tem tecnologia para tal: um personagem que voa precisa voar, um que desaparece precisa desaparecer. Hoje, segundo Luis Fernando Ramos, a “potência latente implícito à mimesis e a noção de poiesis articuladas à de teknè” (RAMOS, 2009, p.99) são boas ferramentas para se analisar o teatro contemporâneo. Se então no teatro contemporâneo a opsis é o elemento central do espetáculo e se a imagem depende do seu meio para se tornar visível, conclui-se então que hoje a tecnologia teatral deixa de ter um lugar periférico e passa a ser necessária como ponto central da criação e analise cênica. A partir disso é possível se conceber uma linha de estudo da cena através da análise da tecnologia teatral utilizada.

Colocado isso, a tentativa prática de encenação do texto A Tempestade seria uma re-apresentação em imagens externas das impressões das imagens mentais geradas pela leitura do texto original. A busca está sendo pautada na criação de uma cena que esteja de acordo com as concepções da mimesis no teatro contemporâneo colocadas pelo professor Luiz Fernando onde a visualidade e a matéria bruta estão em primeiro plano. A tentativa de fazer uma relação entre a teoria e a prática traz como base para a criação dessas imagens o uso das tecnologias teatrais como suporte da visualidade da tradução do mythos original em arquétipos imagéticos reconhecíveis. A grande dificuldade encontrada está sendo em como objetivar essa criação e como ligá-la aos conceitos teóricos do teatro contemporâneo. Usando as palavras de Luiz Fernando:

A alternativa radical e o desafio continuam sendo pensar o espetáculo como puro opsis, matéria concreta tornada visível, textura. Nesta hipótese, criar uma cena, menos do que tecer um novelo de ações, como sugere a metáfora tradicional da criação ficcional e dramática, é construir uma semântica de superfícies, tessituras de cores e imagens, apresentação de objetos não previamente identificados.(RAMOS, 2009, p.98)

BIBLIOGRAFIA

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[i] A cenografia no palco de Shakespeare, da autora, 2009.
[ii] Este mesmo conceito de Próspero como o manipulador da trama está sendo usado como base para a criação da encenação que se pretende.
[iii] Tekné – grupo específico de habilidades e práticas manuais e/ou o conhecimento de como (fabricação).
[iv] Seria o resultado da impressão que se tem do texto como se pretende no processo prático proposto.
[v] Seguindo a ideia da concepção do homem teórico proposta por Sócrates. Segundo Nietzsche, com Eurípedes a tragédia já está em decadência porque ele tinha uma tendência antidionisíaca e queria fundar o drama somente no modo apolíneo procurando ir ao extremo da ideia de Sócrates de que para ser bom (ou belo) a arte deveria ser consciente.
[vi] Segundo Nietzsche a tragédia seria uma mistura de dois elementos artísticos básicos encontrados na natureza: o apolíneo (imagem figurativa plástica onírica) e o dionisíaco (o não figurado, a embriaguez, o íntimo do homem, para ele a música como essência).
[vii] Termo utilizado em aula ministrada na USP em 2011