terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Relatório Prático/outubro 2012


UM NOVO PROCESSO

Nunca pensei muito na possibilidade de criar, dirigir, encenar ou seja lá o que for que estou tentando realizar neste exato momento. Vindo de um mundo do backstage teatral, desde sempre escutei que o trabalho do iluminador e do cenógrafo está ali para servir ao ator e ao texto. Não que isso fosse um problema, eu simplesmente acatava e trabalhava em função do texto. E foi justamente realizando este ponto de “apoio” ao espetáculo teatral que me deparei com as dúvidas que me trouxeram aqui. Com a difusão da tecnologia digital e a possibilidade de todo mundo ter uma pequena câmera nas mãos sem muitos gastos, passou-se a substituir tudo que era caro e trabalhoso por um vídeo projetado. E aí estava o ponto: existem especialistas para fazer vídeo com conhecimento de técnicas, resoluções, tamanho, contrastes etc. Mas, ao contrário, passou-se a acreditar que da mesma forma que agora era fácil gravar era fácil colocar o vídeo em cena. Cinco minutos antes do espetáculo sempre aparecia alguém que chegava com um vídeo pedindo um projetor. Pronto, acabou-se com a afinação de luz que o iluminador levou o dia para fazer, acabou com o salário do cenógrafo que magicamente foi substituído pelo vídeo (como se toda e qualquer cenografia pudesse ser substituída pelo vídeo) e, o que ninguém se deu conta, acabou-se com o espetáculo já que nada conversava entre si.

Na ânsia muitas vezes encontrada no teatro contemporâneo de se resolver as coisas no real, no processo, no trabalho do grupo, na falta de verba, esqueceu-se de chamar os técnicos para fazerem parte disso (existem exceções com certeza). Foi nesse ponto que comecei a desenvolver uma idéia de se estudar a história do teatro através das técnicas teatrais da época. O dramaturgo, ou o encenador, só criam um espetáculo quando tem tecnologia para tal: um personagem que voa precisa voar, um que desaparece precisa desaparecer. Isso ficou muito claro quando desenvolvi minha pesquisa de mestrado, que a princípio era para ser a cenografia no teatro elisabetano, mas acabou se tornando um estudo da estrutura do palco elisabetano sob o ponto de vista das técnicas teatrais possíveis para a época. Porém, até então eu continuava olhando a técnica como algo a serviço do texto.

Foi no encontro com Ana Maria Amaral e no contato com a sua idéia de realização de teatro não verbal que percebi que poderia me aventurar a criar algo onde a iluminação e a cenografia fossem os condutores da narrativa e assim eu pudesse compreender a problemática do processo de criação sob outro ponto de vista. Criamos então um grupo de estudos e começamos a primeira oficina no 1° semestre de 2010.

A primeira proposta consistia na busca de um personagem através de si mesmo. Parimos a idéia de que a criação inicia-se sempre no casulo, na casca, na concha, no ninho, ou em qualquer elemento que crie esse interno. Nossa germinação começou através de ações práticas que buscavam este local de proteção. Materializar esse ser/concha, ainda sem nome de batismo, foi uma experiência introspectiva e linear, ser e material se formaram juntos e sozinhos sem muito esforço. Diferentemente dos demais companheiros, para uma pessoa já acostumada a trabalhar com a transformação de materiais, a grande dificuldade estava no momento de dar anima a esse ser, no momento de imprimir ações a ele. Nesta brincadeira de ser um pouco Deus parece-me que o objeto/ser forma-se sozinho, mas a ação do homem para dar-lhe movimento acaba tornando-se artificial. Após várias tentativas, um tanto quanto frustradas, de impor um movimento a este novo personagem criado, o que facilitou o processo foi a junção com o outro. Está atração com o outro elemento/personagem tornou possível burlar a dificuldade de dar anima, tornando-se apenas reativo a ação do oponente. A partir dessas ações e reações a saga dos personagens em questão acabou por se criar sozinha, os personagens tomaram vida própria sem a necessidade de serem domados por forças externas, neste caso o manipulador.

Em vista de termos criados personagens apenas com a função de pesquisa percebemos algumas fragilidades técnicas, entre elas a perecividade do material utilizado e alguns entraves na manipulação, que poderiam ser eliminadas caso houvesse continuidade do trabalho. No entanto, acho que chegamos ao ponto desejado, criamos uma pequena cena e o processo de criação-apresentação se completou como experimento. Um próximo passo já seria uma criação mais complexa de um espetáculo.

No 2° semestre de 2010 tentamos retomar a cena, agora com o nome de “Mãos e Olhos”, mas a entrada de novos integrantes no grupo e a mudança de local de criação quebraram de certa forma a introspecção que havíamos conseguido até então. Percebemos que na tentativa de dar continuidade a cena fomos obrigados a retornar ao começo e a quebra do processo de criação, mesmo que por um curto período, fez com que nos emprenhássemos por outros caminhos possíveis de criação e a força da cena acabou por se esvair.

No ano seguinte, 2011, comecei oficialmente a desenvolver a minha tese de doutorado na qual me propus uma parte prática onde realizaria cenas, fragmentos, experimentos, sob o ponto focal do processo de criação e não do resultado final. O grande desafio era juntar a minha experiência prática para uma finalidade teórica com algum objetivo. E foi aí que, juntamente com a Ana Maria, eu encontrei um fio condutor para a pesquisa que seria A Tempestade, de William Shakespeare. O interesse primordial era dar um contraponto ao que eu havia estudado na dissertação: se no cenário elisabetano era comum o uso do recurso do texto para preencher os buracos que a visualidade da cena não conseguia resolver por falta de recursos técnicos, o desafio agora é como dizer em imagens o que o texto está proibido de dizer em um teatro não-verbal? A princípio esta pesquisa prática ficaria para mais tarde, mas, já que o grupo de pesquisa ganhou um novo fôlego com um apoio da Funarte acabei aproveitando para começar os meus experimentos. Ainda estamos em processo de criação, mas com algum esboço já elaborado.

Primeiramente pretendia desenvolver uma cena que discutisse o elemento água, que havia resultado de um exercício prático. Para isso me aliei a outro componente (Paulo) e os poucos momentos que criei juntamente com ele foram muito ricos, mais intuitivos do que a construção técnica dos personagens durante as oficinas, talvez porque tínhamos, naquele momento, encontrado uma afinidade de idéias interior, visceral e inconsciente. É esse ponto do inconsciente que me interessa ao pensar um teatro onde as imagens devem falar por elas mesmas. É na crença de que temos um "inconsciente coletivo" e na crença da arte como um ato político de resgate interior do espectador, que acredito encontrar o teatro que estamos tentando fazer. Não me interessa o que as coisas significam, sob uma visão da semiótica, mas as sensações que elas despertam. Não me interessa que o espectador entenda, mas que ele sinta.

Porém, no decorrer do processo, notamos que a criação coletiva estava enfraquecendo a cena já que as idéias da necessidade de uma linha narrativa clara ou não estavam em discordância. Acredito que a grande questão quando se fala de um teatro de imagens é a relação que cada um cria no tempo e no espaço com essas imagens, mais do que uma questão de formas dramáticas ou não-dramáticas. O que está em jogo é a forma de manipulação desse tempo-espaço, a forma como o criador se relaciona com a imagem: mais subjetivo como em Leszek Madzik, mais político como no caso de Kantor, mais atemporal como no caso de Bob Wilson. É a base na imagem e consequentemente a relação com o inconsciente do receptor que se define o teatro do qual pretendemos falar. E será na escolha de uma maior ou menor relação com o texto que encontraremos diferentes linguagens dentro desse conceito.

Foi nesse ponto que optamos por separar as idéias, dando a cada integrante a possibilidade de testar a sua idéia como cena, porém mantendo o trabalho coletivo. Então optei por iniciar diretamente o trabalho que vinha propondo na tese (A Tempestade). Pensando sobre um teatro de imagens, nada impede de criemos uma linha narrativa entre as imagens que estamos colocando no palco, porém, como na minha pesquisa já parto de uma linha narrativa bem definida, não acho necessário haver também essa linha na cena. A minha proposta é colocar em cena as sensações que este texto desperta no inconsciente. O próprio texto já trabalha com essa concepção de real/irreal, consciente/inconsciente e traz arquétipos que traduzem o que está realmente no cerne da história (questões primordiais dos seres humanos como vingança, traição, solidão, amor e etc).

RESUMINDO:

1)BUSCA:  Parte-se de um texto, idéia, objeto, sombra, material, ou de si. (No caso específico da Tempestade de um texto)

2)MATERIALIZAÇÃO: a materialização em imagem do elemento do qual partimos é uma experiência introspectiva e linear, ser e material se formaram juntos e sozinhos sem muito esforço se interferirmos o menos possível

3) ANIMAÇÃO: a ação do homem-manipulador para dar movimento ao personagem criado muitas vezes cai no erro da artificialidade. Quando o homem deixa de tentar “dar vida à” e tornar-se apenas o reativo a ação do seu oponente, a fruição da cena acontece de forma mais natural.

4) A SAGA: Todo teatro de imagens tem uma saga mesmo que seja só uma direção e em algum momento do processo de criação se tornará necessário passar por ela.

5)QUESTÕES:
A falta de texto e a inserção do vocabulário visual deixam o teatro de imagem mais próximos dos entendimentos míticos do homem? Neste caso a saga está na maioria das vezes mais próxima ao que ocorre em nossos sonhos, sem começo, sem meio e sem fim?
Pode-se dizer que mesmo que tenhamos alguma consciência do processo, é no espaço ilógico e irracional que este teatro se cria?
Não é mais a compreensão linear do espectador que interessa, então como sensibilizar este receptor?
O quanto as características prévias dos criadores influenciam no processo da criação de imagens? Será que isso acarreta numa dificuldade de criação coletiva?
Como transitar nessa relação entre texto e imagem?