terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Reflexão Oficina Protágonas/ setembro 2012


Acredito que a grande questão quando se fala de um teatro contemporâneo é a questão do tempo-espaço e não uma questão de formas dramáticas ou não-dramáticas. O que está em jogo é a manipulação desse tempo-espaço. Em conseqüência, pensando na proposta de se criar um Teatro de Imagens, sem palavras, onde a Opis aparece como dominante sobre a Mimesis (ou pelo menos no mesmo patamar), parece-me plausível observar que as questões a serem abarcadas são mais profundas do que apenas o fio condutor da história.

Ao observar e participar das oficinas que vem ocorrendo desde 2010, e refletindo principalmente sobre a última oficina realizada em junho de 2012, percebo uma dificuldade no que diz respeito ao processo de criação da cena. A procura e a criação dos objetos/seres, como já colocado numa reflexão anterior, me são simples (seja ele algo que venha do Eu, da sombra, de uma idéia, de uma narrativa pré-estabelecida e etc). Esta constatação vem de encontro a minha formação. Não sou diretora nem atriz, sou técnica, pintora, cenógrafa, iluminadora, aderecista. Além disso, a forma como me relaciono com as "coisas" (imagens, objetos, sombras, ou o que for) é em outro viés que não o que pude perceber na maioria dos participantes das oficinas (composta na sua maioria por atores e diretores). Pergunto: será que além do fio condutor da história não temos que levar em conta as características prévias dos criadores? Em outras palavras, a forma de se relacionar com a imagem e o tempo-espaço interno desses criadores não são aqui muito mais relevantes do que quando estamos encenando um teatro dramático? Creio que sim.

Os poucos momentos que criei juntamente com o Paulo foram muito mais intuitivos do que a construção técnica dos personagens durante as oficinas, talvez porque tenhamos, naquele momento, encontrado uma afinidade de idéias interior, visceral e inconsciente. É esse ponto do inconsciente que me interessa ao pensar um teatro onde as imagens devem falar por elas mesmas. É na crença de que temos um "inconsciente coletivo" e na crença da arte como um ato político de resgate interior do espectador, que acredito encontrar o teatro que estamos tentando fazer. Não me interessa o que as coisas significam, sob uma visão da semiótica, mas as sensações que elas despertam. Não me interessa que o espectador entenda, me interessa que ele sinta. Essas palavras costumam gerar discordâncias entre nós, criadores, mas, como já discutido, acho que não só podemos como devemos ter diferentes pilares de criação no Teatro de Imagens. Nada impede de criarmos uma linha narrativa entre as imagens que estamos colocando no palco. Porém, na minha pesquisa, como já parto de uma linha narrativa bem definida que é A Tempestade de Shakespeare, não acho necessário haver também essa linha na cena. A minha proposta é colocar em cena as sensações que este texto desperta no inconsciente. O próprio texto já trabalha com essa concepção de real/irreal, consciente/inconsciente e traz arquétipos que traduzem o que está realmente no cerne da história (questões primordiais dos seres humanos como vingança, traição, solidão, amor e etc). Por este motivo, me parece prejudicial informar ao espectador que estamos encenando A Tempestade, isto daria a ele uma informação racional do que viria a seguir dificultando a possibilidade de acesso ao seu inconsciente.

Colocado isso, e tendo convicção de que a minha pesquisa com A Tempestade é um trabalho ao qual pretendo me debruçar por, no mínimo, mais três anos, não gostaria de abandonar essa idéia da “imagem como sensação”. Por outro lado, não vou contra as outras formas nas quais podemos criar um Teatro de Imagens. Sendo assim, gostaria de propor que cada um dos três integrantes do grupo (os que já vem da primeira oficina) tomasse frente em uma cena. Criaríamos então, ao invés das duas cenas já em andamento, 3 cenas (mais o Protágonas), tendo como resultado final quatro pontos de vista diferente. Todas as cenas teriam a orientação da Ana Maria e a participação dos demais, mas cada um teria a possibilidade de testar suas próprias idéias.