Acredito que a grande questão quando se fala de um teatro contemporâneo
é a questão do tempo-espaço e não uma questão de formas dramáticas ou
não-dramáticas. O que está em jogo é a manipulação desse tempo-espaço. Em
conseqüência, pensando na proposta de se criar um Teatro de Imagens, sem
palavras, onde a Opis aparece como dominante sobre a Mimesis (ou pelo menos no
mesmo patamar), parece-me plausível observar que as questões a serem abarcadas
são mais profundas do que apenas o fio condutor da história.
Ao observar e participar das oficinas que vem ocorrendo desde 2010, e
refletindo principalmente sobre a última oficina realizada em junho de 2012,
percebo uma dificuldade no que diz respeito ao processo de criação da cena. A
procura e a criação dos objetos/seres, como já colocado numa reflexão anterior,
me são simples (seja ele algo que venha do Eu, da sombra, de uma idéia, de uma
narrativa pré-estabelecida e etc). Esta constatação vem de encontro a minha
formação. Não sou diretora nem atriz, sou técnica, pintora, cenógrafa,
iluminadora, aderecista. Além disso, a forma como me relaciono com as
"coisas" (imagens, objetos, sombras, ou o que for) é em outro viés
que não o que pude perceber na maioria dos participantes das oficinas (composta
na sua maioria por atores e diretores). Pergunto: será que além do fio condutor
da história não temos que levar em conta as características prévias dos
criadores? Em outras palavras, a forma de se relacionar com a imagem e o
tempo-espaço interno desses criadores não são aqui muito mais relevantes do que
quando estamos encenando um teatro dramático? Creio que sim.
Os poucos momentos que criei juntamente com o Paulo foram muito mais
intuitivos do que a construção técnica dos personagens durante as oficinas, talvez
porque tenhamos, naquele momento, encontrado uma afinidade de idéias interior,
visceral e inconsciente. É esse ponto do inconsciente que me interessa ao
pensar um teatro onde as imagens devem falar por elas mesmas. É na crença de
que temos um "inconsciente coletivo" e na crença da arte como um ato
político de resgate interior do espectador, que acredito encontrar o teatro que
estamos tentando fazer. Não me interessa o que as coisas significam, sob uma
visão da semiótica, mas as sensações que elas despertam. Não me interessa que o
espectador entenda, me interessa que ele sinta. Essas palavras
costumam gerar discordâncias entre nós, criadores, mas, como já discutido, acho
que não só podemos como devemos ter diferentes pilares de criação no Teatro de Imagens.
Nada impede de criarmos uma linha narrativa entre as imagens que estamos
colocando no palco. Porém, na minha pesquisa, como já parto de uma linha
narrativa bem definida que é A Tempestade
de Shakespeare, não acho necessário haver também essa linha na cena. A minha
proposta é colocar em cena as sensações que este texto desperta no
inconsciente. O próprio texto já trabalha com essa concepção de real/irreal,
consciente/inconsciente e traz arquétipos que traduzem o que está realmente no
cerne da história (questões primordiais dos seres humanos como vingança,
traição, solidão, amor e etc). Por este motivo, me parece prejudicial informar
ao espectador que estamos encenando A
Tempestade, isto daria a ele uma informação racional do que viria a seguir dificultando
a possibilidade de acesso ao seu inconsciente.
Colocado isso, e tendo convicção de que a minha pesquisa com A Tempestade é um trabalho ao qual
pretendo me debruçar por, no mínimo, mais três anos, não gostaria de abandonar
essa idéia da “imagem como sensação”. Por outro lado, não vou contra as outras
formas nas quais podemos criar um Teatro de Imagens. Sendo assim, gostaria de
propor que cada um dos três integrantes do grupo (os que já vem da primeira
oficina) tomasse frente em uma cena. Criaríamos então, ao invés das duas cenas
já em andamento, 3 cenas (mais o Protágonas), tendo como resultado final quatro
pontos de vista diferente. Todas as cenas teriam a orientação da Ana Maria e a
participação dos demais, mas cada um teria a possibilidade de testar suas
próprias idéias.