terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Reflexão processo janeiro 2013


Após a primeira apresentação da cena em agosto de 2012 (ainda como Tempestade/Fractais) da qual havia saído bastante satisfeita, apesar de saber que tinha muito ainda a ser feito, as coisas começaram a degringolar. A diálogo com o resto do grupo e a criação coletiva debandaram completamente a ideia original. Me sentia sendo completamente estuprada por atores e diretores de longa data com ideias arraigadas e processos já formados. Comecei então a me perguntar como era possível criar, ou re-apresentar, algo guardado exclusivamente dentro da cabeça de cada um de uma forma coletiva. Seria possível? Continuo sem respostas.

Voltando então ao ponto inicial do meu impasse não me parecia possível e nem necessário criar um fio condutor narrativo claro como queriam os demais. Não me interessava a ação clara, me interessava a imagem, mesmo que estática, o não movimento também como ação. Surgiu a pergunta se isso não estaria mais ligado as artes plásticas do que ao teatro? Após algumas reflexões cheguei à conclusão que isto não era um empecilho e nem mesmo um ponto a ser discutido. O teatro contemporâneo tende ao hibridismo das artes, e o teatro de imagens talvez seja o exemplo mais claro dessa mistura. Sendo assim me parece que o mais importante é a potência que o espetáculo tem em gerar algum tipo de impacto no receptor, muito mais do que a separação entre os conceitos de arte. A solução encontrada pelo grupo ao impasse que estávamos foi a separação das cenas. Cada um criaria o seu próprio processo e veríamos o resultado.

Três meses se passaram e vários objetos haviam sido criados. Parecia que havíamos tomado um corpo e que teríamos um bom material para discutirmos os processos de criação de um teatro de imagens, quando me arrisquei a apresentar um seminário sobre o assunto. Depois de eternos 10 minutos de olhares incógnitos virados para mim, nem um comentário, nem uma pergunta, nem uma crítica. Entrei em crise total e queria me jogar do 11° andar. Tarde demais. Percebi então que estava vivendo um grande abismo entre o que me rondava como teoria e o que estávamos colocando em prática. A ideia de se tentar mapear um processo para a criação do que estávamos chamando de teatro de imagens se ruía a cada novo olhar que eu colocava sobre a cena. A busca incessante pela materialização da ideia ao invés de agregar enfraquecia a cena. A necessidade de se criar uma simbologia e um significado para cada elemento criado travava o processo subjetivo da criação, o qual me parece o pilar de sustentação desse tipo de teatro. A separação dos elementos do espetáculo geradores de imagens (som, luz, objeto, humano) em etapas diferenciadas era outro ponto que me incomodava como criadora. Não que isso não pudesse ser uma proposta, mas o que para uns poderia facilitar, para mim dificultava a espontaneidade.

Alguns dias de crise e rasguei a cena voltando à primeira imagem da projeção da água que ressonava na minha cabeça desde maio. Por algum motivo sempre acreditei que aquela era a imagem que tendia a definir toda a linguagem da cena. Recomeçando novamente do zero me debrucei na imagem sonora procurando o que ela pudesse me responder ao dialogar com a imagem visual. Juntando a imagem visual da água projetada, com a imagem sonora de baleias no fundo do mar, com a concepção teórica de que a história da Tempestade podia ser vista através do viés do personagem Próspero como o manipulador de todos os acontecimentos, a cena começou a tomar um corpo. Este novo fôlego me provou que a criação concomitante de tudo que diz respeito ao espetáculo é fundamental para o processo que pretendo desenvolver. Re-apresentei a cena em outubro/novembro já com outra forma, outro espaço e outra concepção de linguagem, agora bem mais subjetiva e com uma temporalidade estendida.

Apesar de existirem algumas arestas a serem aparadas, a cena estava agora em um caminho mais condizente com a processo teórico de pesquisa que venho desenvolvendo sobre a possibilidade de transformação de um texto em imagens. No momento me encontro na 3° versão do roteiro, mas ainda debruçada no primeiro ato da peça onde o navio naufraga na costa da ilha de Próspero. Mesmo que isso possa parecer a primeira vista um processo lento, acredito que o mergulho tão intenso na primeira cena faz parte da busca por um tipo de linguagem cênica e que depois dessa linguagem delimitada ficará mais fácil dar continuidade as cenas, como se pretende no projeto de doutorado que vem sendo desenvolvido paralelamente ao projeto da Funarte.