Após
a primeira apresentação da cena em agosto de 2012 (ainda como
Tempestade/Fractais) da qual havia saído bastante satisfeita, apesar de saber
que tinha muito ainda a ser feito, as coisas começaram a degringolar. A diálogo
com o resto do grupo e a criação coletiva debandaram completamente a ideia
original. Me sentia sendo completamente estuprada por atores e diretores de
longa data com ideias arraigadas e processos já formados. Comecei então a me
perguntar como era possível criar, ou re-apresentar, algo guardado
exclusivamente dentro da cabeça de cada um de uma forma coletiva. Seria possível?
Continuo sem respostas.
Voltando
então ao ponto inicial do meu impasse não me parecia possível e nem necessário
criar um fio condutor narrativo claro como queriam os demais. Não me interessava
a ação clara, me interessava a imagem, mesmo que estática, o não movimento
também como ação. Surgiu a pergunta se isso não estaria mais ligado as artes
plásticas do que ao teatro? Após algumas reflexões cheguei à conclusão que isto
não era um empecilho e nem mesmo um ponto a ser discutido. O teatro
contemporâneo tende ao hibridismo das artes, e o teatro de imagens talvez seja
o exemplo mais claro dessa mistura. Sendo assim me parece que o mais importante
é a potência que o espetáculo tem em gerar algum tipo de impacto no receptor,
muito mais do que a separação entre os conceitos de arte. A solução encontrada pelo
grupo ao impasse que estávamos foi a separação das cenas. Cada um criaria o seu
próprio processo e veríamos o resultado.
Três
meses se passaram e vários objetos haviam sido criados. Parecia que havíamos
tomado um corpo e que teríamos um bom material para discutirmos os processos de
criação de um teatro de imagens, quando me arrisquei a apresentar um seminário
sobre o assunto. Depois de eternos 10 minutos de olhares incógnitos virados
para mim, nem um comentário, nem uma pergunta, nem uma crítica. Entrei em crise
total e queria me jogar do 11° andar. Tarde demais. Percebi então que estava
vivendo um grande abismo entre o que me rondava como teoria e o que estávamos
colocando em prática. A ideia de se tentar mapear um processo para a criação do
que estávamos chamando de teatro de imagens se ruía a cada novo olhar que eu
colocava sobre a cena. A busca incessante pela materialização da ideia ao invés
de agregar enfraquecia a cena. A necessidade de se criar uma simbologia e um
significado para cada elemento criado travava o processo subjetivo da criação,
o qual me parece o pilar de sustentação desse tipo de teatro. A separação dos
elementos do espetáculo geradores de imagens (som, luz, objeto, humano) em
etapas diferenciadas era outro ponto que me incomodava como criadora. Não que
isso não pudesse ser uma proposta, mas o que para uns poderia facilitar, para
mim dificultava a espontaneidade.
Alguns
dias de crise e rasguei a cena voltando à primeira imagem da projeção da água
que ressonava na minha cabeça desde maio. Por algum motivo sempre acreditei que
aquela era a imagem que tendia a definir toda a linguagem da cena. Recomeçando
novamente do zero me debrucei na imagem sonora procurando o que ela pudesse me
responder ao dialogar com a imagem visual. Juntando a imagem visual da água
projetada, com a imagem sonora de baleias no fundo do mar, com a concepção
teórica de que a história da Tempestade podia ser vista através do viés do
personagem Próspero como o manipulador de todos os acontecimentos, a cena
começou a tomar um corpo. Este novo fôlego me provou que a criação concomitante
de tudo que diz respeito ao espetáculo é fundamental para o processo que
pretendo desenvolver. Re-apresentei a cena em outubro/novembro já com outra
forma, outro espaço e outra concepção de linguagem, agora bem mais subjetiva e
com uma temporalidade estendida.
Apesar
de existirem algumas arestas a serem aparadas, a cena estava agora em um
caminho mais condizente com a processo teórico de pesquisa que venho
desenvolvendo sobre a possibilidade de transformação de um texto em imagens. No
momento me encontro na 3° versão do roteiro, mas ainda debruçada no primeiro
ato da peça onde o navio naufraga na costa da ilha de Próspero. Mesmo que isso
possa parecer a primeira vista um processo lento, acredito que o mergulho tão
intenso na primeira cena faz parte da busca por um tipo de linguagem cênica e que
depois dessa linguagem delimitada ficará mais fácil dar continuidade as cenas,
como se pretende no projeto de doutorado que vem sendo desenvolvido
paralelamente ao projeto da Funarte.