Magrittes, Drummonds e Buarques Tortos
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
é sério, simples e forte.
o homem atrás dos olhos e do bigode.
Meu deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
mais vasto é meu coração.
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci veio um anjo safado
E decretou que eu tava predestinado
Já de saída a minha estrada entortou
Inda garoto deixei de ir à escola
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Mamão contou que eu faço um bruto sucesso
Não sei como o maracatu começou
Por conta de umas questões paralelas
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
Criei barriga, minha mula empacou
Não tem cigarro, acabou minha renda
Minha mulher fugiu com o dono da venda
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Como já disse era um anjo safado
Que decretou que eu tava predestinado
Já de saída minha estrada entortou