domingo, 30 de janeiro de 2011

Magrittes, Drummonds e Buarques Tortos

    POEMA DE SETE FACES
    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
    As casas espiam os homens
    que correm atrás das mulheres
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.
    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.
    O homem atrás do bigode
    é sério, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos raros amigos
    o homem atrás dos olhos e do bigode.
    Meu deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus,
    se sabias que eu era fraco.
    Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.
    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo.
    Carlos Drummond de Andrade
    ATÉ O FIM
    Quando nasci veio um anjo safado
    O chato dum querubim
    E decretou que eu tava predestinado
    A ser errado assim
    Já de saída a minha estrada entortou
    Mas vou até o fim
    Inda garoto deixei de ir à escola
    Cassaram meu boletim
    Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
    Nem posso ouvir clarim
    Um bom futuro é o que jamais me esperou
    Mas vou até o fim
    Eu bem que tenho ensaiado um progresso
    Virei cantor de festim
    Mamão contou que eu faço um bruto sucesso
    Em Quixeramobim
    Não sei como o maracatu começou
    Mas vou até o fim
    Por conta de umas questões paralelas
    Quebraram meu bandolim
    Não querem mais ouvir as minhas mazelas
    E a minha voz chinfrim
    Criei barriga, minha mula empacou
    Mas vou até o fim
    Não tem cigarro, acabou minha renda
    Deu praga no meu capim
    Minha mulher fugiu com o dono da venda
    O que será de mim?
    Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
    Mas vou até o fim
    Como já disse era um anjo safado
    O chato dum querubim
    Que decretou que eu tava predestinado
    A ser todo ruim
    Já de saída minha estrada entortou
    Mas vou até o fim
    Chico Buarque